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domingo, 6 de setembro de 2020

A má criada

A Lurdinhas de Benfica

Anda muito stressada

Apanhou o marido

Na cama c'a criada.

 

E logo sentenciou

Com sua voz altiva

Tens que largar a criada

Senão vais pagar IVA

 

E o marido largou

A desiludida criada

A família está primeiro

Ou não estivesse abençoada.

 

A Lurdinhas de Benfica

Às amigas não disse nada

Escolheu umas férias

E despediu a criada.

 

O marido contente

Com aquela decisão

Elogiou a Lurdinhas

E o seu coração.

 

E lá vão os dois

Em excursão a Jerusalém

Não há mal algum

Que não venha por bem.

 

Os dois peregrinos

Com o grupo excursionista

Tiraram uma foto

P'rá capa duma revista,

 

Que a criada desfolha

Barriguda e feliz

Dormi com aquele tipo

Mas foi Deus que quis.

 

 

José Carlos S. de Almeida

Lisboa, Maio de 2001

sábado, 25 de abril de 2020

O 25 de abril também pode ser uma história de amor

Nesse ano faria 15 anos, era uma idade crítica, se é que não são todas. Frequentava o Liceu de Caldas da Rainha, colonialmente denominado como Secção liceal do Liceu Nacional de Leiria, algo que não nos dizia nada na altura.
Funcionava, então, nos Pavilhões do Parque, uma construção já com alguns séculos e que se situava no aprazível parque da cidade. Nesse ano, ou melhor, nesses anos, existia um numeroso grupo de professores que se revelaria marcante na minha formação, como foi o caso do António Avelãs, meu professor de Filosofia e que foi presidente do SPGL e de quem sou amigo. Ou a esposa, Ermelinda. Ou o Vasco, também professor de Filosofia. Ou o Morais, de Educação Física, um gigante generoso.

Com as mudanças operadas com o 25 de Abril de 1974, a vida na escola transformou-se radicalmente, alterando a relação entre professores e alunos. Não tenho dúvidas em afirmar que foram os anos mais importantes para a minha formação política e cultural e aquilo que hoje sou é ainda devedor das experiências democráticas que na altura ocorreram na vida das escolas e na sua gestão e que nunca mais viriam a repetir-se, iniciando-se alguns anos depois, um processo de retrocesso a esse nível que nunca mais terminou.
Mas voltemos a 1974, precisamente a 16 de Março. Era um sábado e preparava-me com um grupo de colegas para irmos disputar um jogo de futebol de salão na Marinha Grande. Na cidade já se notava uma agitação anormal e quando, no fim do dia, regressámos, já sabíamos o que tinha acontecido: que um grupo de militares do RI5 (Regimento de Infantaria 5) de Caldas da Rainha, avançara rumo a Lisboa no pressuposto de que outras unidades militares tinham procedido da mesma maneira, convergindo, na capital, no derrube do governo de Marcello Caetano.
Contudo, tinham sido os únicos a sair do quartel e acabaram por regressar às Caldas onde acabariam por se render depois de cercado o seu quartel por forças leais ao regime fascista. A cidade estava inundada por sinistros agentes da PIDE. Os principais dirigentes dos militares insurrectos acabaram detidos e levados para Lisboa. Na segunda-feira seguinte, quando entrei na sala de aulas, a minha professora de Francês, na altura considerada entre os alunos como a professora mais bonita da escola, estava virada para a janela que dava para o parque.
Quando se virou para nós, depois de todos terem entrado, reparámos que tinha estado a chorar. O marido era um dos oficiais do RI5 que tinha sido preso.
A justeza das ideias também pode ceder à dor dos momentos e das situações. Tinha casado há pouco tempo, tinha um bebé de um ano e via-se agora numa situação de incerteza com o marido detido. Durante aqueles dias houve um pacto entre os alunos: todos nos esforçámos por portar bem, por colaborar nas aulas, por aprender francês, pois já bastava a preocupação e a tristeza que sentia. Era uma forma de mostrarmos a nossa solidariedade.
Da parte dos professores seus colegas também observámos essa solidariedade. Até porque havia mais uma ou duas professoras que estavam casadas com militares detidos na sequência do dia 16 de Março. Na altura, lembro-me de Marcello Caetano vir sossegar a população portuguesa, porque estava tudo sob controlo.
Não estava e passado pouco mais de um mês aconteceu o 25 de Abril.
Foi numa quinta-feira e recordo-me de, nessa manhã, entrar na sala de aula de francês, de manhã, com o jornal que tinha comprado. Devia ser o Diário de Lisboa, que era o jornal que eu via o meu vizinho do 1º andar ler.
Conversava muitas vezes com ele e emprestava-me livros “revolucionários” que eu lia avidamente, às escondidas. Ora, como ele tinha estado preso por razões políticas no forte de Peniche e isso só podia significar ele ser um homem de bem e o Diário de Lisboa só podia ser o jornal indicado. Era esse e o Notícias do Funchal.
Ora, eu tinha comprado nessa manhã o Diário de Lisboa e entrei na sala de aula com ele bem visível. A professora de Francês que estava na sala de aula apresentava-se, nessa manhã bem sorridente, acentuando os seus bonitos traços de jovem mulher.
Quando eu entrei, dirigiu-se a mim e deu-me um grande e inesperado abraço. Nunca pensei que fosse possível receber um abraço duma professora. Devo ter corado, mas compreendia perfeitamente a sua felicidade. De qualquer modo, o significado afetivo da revolução de Abril ficou plasmado nesse abraço: era a revolução que permitia que professores e alunos pudessem dar um abraço; a revolução significou, pois, para mim, um adolescente de 14 anos, igualdade e liberdade.
Passados poucos dias, a minha professora de Francês tinha o marido à espera na sala de professores. Um oficial fardado no liceu era um motivo de alarido, pois na altura os militares eram os verdadeiros heróis. E, aquele, por razões dobradas.
Vinha com a sua filha de um ano ao colo. Aproveitei para saudar a minha professora de Francês e cumprimentar o marido. Ah, e também espreitei o bebé, uma menina de olhos azuis muito bonita. Saía à mãe, mas os olhos eram do pai.
Durante muitos anos ficou-me na memória aquele abraço. Ou como a tristeza nunca é definitiva. Ou como as revoluções também se fazem em nome da felicidade.
Passados muitos anos, estava na Faculdade de Direito à noite onde me tinha licenciado, contei esta história a uma colega. Por acaso ela tinha olhos azuis e acabou por me confessar que a mãe tinha dado aulas no liceu das Caldas. E o pai tinha estado preso por participar no 16 de Março. Contei-lhe que os conhecia, que a conhecia daquele tempo, era bebé. Falei-lhe daqueles dias, daqueles anos. E daquele abraço.
Não sei se esta história do abraço dum aluno e duma professora a emocionou. Esta história, como outras daqueles anos irrepetíveis duma revolução que mobilizou generosamente um povo.

Acabámos por nos apaixonar e casar. Afinal, aquele abraço de 1974 acabou por perdurar no tempo. O nosso amor talvez tivesse nascido naquele abril distante. É que o 25 de Abril também pode ser uma história de amor.

Castelo Branco, Quinta da Garalheira, 25 de abril de 2020 (originalmente publicado, com algumas modificações, no jornal on line Tornado em 25 de abril de 2016).

segunda-feira, 6 de abril de 2020

O tempo dum olhar na marginal

A pouco e pouco esquecemo-nos dos pormenores dum rosto, das suas particularidades mais notáveis,  dignas de nota, dos sinais, mesmo os dos mais invulgares. O rosto torna-se um mapa confuso até se transformar num apressado caldo de sensações. É por isso que o apaixonado, na incandescência do seu amor mis recente, tem dificuldade em se lembrar do rosto do outro, quando à noite se esforça por recordá-lo, para que ele entre no seu sonho a seguir. Que irritante se torna termos ali o rosto do outro quase à mão de semear, como um nome na ponta da língua mas de que não conseguimos lembrar. O rosto do outro ganha quase a dimensão do fantasma, de algo nebuloso, mas etéreo. Porém, não esquecemos a profundidade de um olhar, o modo como olhar nos olha, a maneira como nos sentimos olhados, profanados, e no acabamos por ver através do olhar do outro, nos reconhecemos.
Jorge recorda o olhar intenso de Luísa, um dia à noite na marginal, cada um dentro do seu carro, parados nos semáforos, os dois carros à distância mínima, como bólides à espera da bandeirada da partida, acelerando nervosos, motores inquietos. Nesse momento sentiram ao vivo como o molhar pode hipnotizar os amantes, os pode tornar incapazes de qualquer gesto, hipnotizados, imobilizados no auge do fascínio. À maneira da serpente. Não estavam bem imóveis: estavam docemente paralisados pelo olhar de cada um, suspensos no tempo que se suspendera também. Nenhum deles tinha vontade de quebrar esse encantamento. Estátuas para a eternidade. Também é verdade que, naquele  momento, cumpriam uma parte do seu destino: o de, no momento em que se encontravam, apartarem-se por completo dos outros e das coisas e apenas celebrarem o seu espaço, o ambiente que laboriosamente, com muito cuidado, iam construindo. Como estátuas, apenas escutavam o bater feliz do coração. Apenas existiam um para o outro. Banalidades. E aquela mulher era o seu melhor cenário, de sempre. Naquele momento. Tomara ele tornar-se no justo jardim para a receber.



Para escutar enquanto se lê... Aqui.


sábado, 19 de outubro de 2019

Não há futuro no mundo da canção


Invetivou a formiga
A cantadeira cigarrinha
«E se eu lhe cantar uma cantiga
Por uma saca de farinha?»

A formiga sempre apressada
Mais um pouco nem reparava
Na cigarra esfomeada
E na figura que causava.

A pobrezita cigarra
Disse novamente à formiga
«Tome lá esta guitarra
E encha-me a barriga.»

Fico sem o meu instrumento
Que vai ser de mim sem ela
Sem guitarra p’ra cantar
Vou ter que cantar à capela.

Mas estou tão aflita
Sem nada para morfar
Além disso não tenho guita
Só a guitarra para empenhar.

A cigarra olhou para a formiga
Com ar de reprovação
«Já devias há muito saber
Que não há futuro na canção».

quinta-feira, 17 de outubro de 2019

terça-feira, 3 de setembro de 2019

O cuco revoltado


Um dia o cuco
Revoltou-se
Estava cansado
Da sua vida de rotina
Sempre sempre preocupado
Ou mesmo obcecado
Em dar horas sempre à hora
E ser-lhe imperdoável
Ou mesmo censurável
qualquer fútil demora.

E vai daí fugiu do relógio
em que vivia
E desse trabalho horário
Pois antes preferia
Ser livre mesmo sem salário.

«E agora quem nos avisa
Que as horas estão a passar
Se já não temos um cuco
Para as poder cucar?»

«Com toda a precisão
Vamos andar atrasados
Ou chegar adiantados
Aos nossos afazeres
Sem saber que horas são
Como cumprir os deveres?»

Mas o cuco não quis saber
Antes queria viver sem as horas a dar
Pois é bem melhor viver
A dormir que... a trabalhar.

segunda-feira, 12 de agosto de 2019

Um macaco no nariz

Um dedo explorador
Escarafunchando feliz
Deu de caras, salvo seja,
com um macaco que lhe diz:

«Não te quero por aqui
Explorando a minha casa.
Dá corda aos patins, e
some-te daqui! Basa!»

Tinha razão o macaco
Por ter ficado zangado,
pois o dedo no nariz
estava onde não era chamado!

terça-feira, 16 de abril de 2019

Quando os teus olhos fecham é noite


De ti para mim o vento corre
Com os inacessíveis segredos
E as histórias onde percorre
O teu corpo os meus dedos.

Os ventos é que acedem
Por entre corredores à fortaleza do bem-amado
É a eles que os lábios pedem
A memória de cada centímetro esquadrinhado.

Estranho e máximo conhecimento
Em cada pêlo a sua marca
Aí se guarda em cada um a sua Babel
Cuja torre toda a história abarca.

Pelos teus olhos passa agora um laranjal
Reclamado pela m’nha sede
Pois seus frutos e carne me refrescam
As lembranças feitas duma rede
Para os peixes que no vento pescam.

E adormecem quando luzes soam
No pintado céu de papel
Peixes que no vento voam
Enganados p’lo mar da tua pele.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

Será que.


Será que Freud, por exemplo,
também sentia
muito de vez em quando
o ruído do seu estômago
alertando-o para uma insondável interioridade.

E será que Kant
também
muito de vez em quando
se peidava com discreto espalhafato
(como se fosse possível)
imaginando então
o protesto da ding-an-sich?

Será que estes homens tão especiais
também
quando calhava
batiam uma desalmadamente
ou não, oh não, nem pensar,
ou antes 
apenas
deixaram para nós
as suas ideias e os seus livros
aceitáveis.

(11-2-2019)

segunda-feira, 1 de outubro de 2018

De cara tapada

Retângulo desesperado
sem fronteiras para a dignidade adentro
honra perdida mares fora
pátria má amante, madrasta, putéfia,
mereces o meu ódio.

Foda-se Portugal,
fosses antes uma província do Irão
da minha ira
e andasses de cara tapada.

terça-feira, 28 de agosto de 2018

De passagem

Diante da minha janela passa uma rua
o fim da rua que era
também o fim do mundo.
Era um mundo cheio de pressa
o mundo que passava diante
da minha janela.
Até que um dia passaste
nessa rua
atravessaste o mundo
que passava
quando passavas.
A rua ficou diferente
O mundo já não era o mesmo.
E os meus olhos até aí cegos
tiveram que aprender tudo
outra vez.
(Lisboa, agosto, 2009-2014)

sábado, 18 de agosto de 2018

Quando o sol


Temos que ir.
Como se o mundo acabasse
Numa tarde de facas e
Sol que nunca mais finda
A pino.

Oiço as paredes
A cal branca das paredes
e a memória das cigarras em guerra.

A água corre?
Rumorosos regatos recordam-me
Tardes. É assim que cresço
Entre essa lembrança e a dor
De dias. A casa abate-se sobre mim
E sobre o meu desejo cresce um corpo
Que ainda não sei até onde vai.

Se consigo escrever é porque desfaleço
Nas palavras que não consigo dizer.
Odeio as letras que me faltam, porque
Há um excesso. Nas borbulhas do corpo, nas
Minhas mãos. Em tudo o que dói e sangra e
Se recorta da brancura dos lençóis.
Amo e no entanto percorro os dias
Infeliz. Deliciosa tortura esta
Feita de tesouras, musgo e pele.

O teu cheiro eterno persegue-me
Como se fosse uma sentença, uma prisão
Para sempre. Vá para onde for, persegue-me o teu cheiro
E as tuas mãos, e o teu olhar de mar
E outras coisas que eu sei que aparecerão sempre
Por mais que fuja e me afaste.

És assim a mais terrível emboscada.
Terrível, até quando te ris.

E é pela tua calma indizível
Que vai caindo a tarde e
o Sol esmorece
Cansado.

terça-feira, 14 de agosto de 2018

Quando os teus olhos fecham é noite


De ti para mim o vento corre

Com os inacessíveis segredos
E as histórias onde percorre
O teu corpo os meus dedos.

Os ventos é que acedem
Por entre corredores à fortaleza do bem-amado
É a eles que os lábios pedem
A memória de cada centímetro esquadrinhado.

Estranho e máximo conhecimento
Em cada pêlo a sua marca
Aí se guarda em cada um a sua Babel
Cuja torre toda a história abarca.

Pelos teus olhos passa agora um laranjal
Reclamado ávido p’la m’nha sede
Pois seus frutos e carne me refrescam
As lembranças feitas duma rede
Para os peixes que no vento pescam

E adormecem quando luzes soam
No pintado céu de papel
Peixes que no vento voam
Enganados p’lo mar da tua pele.


(Sesimbra, 2009)

sábado, 7 de abril de 2018

A rolha do rei da rússia


Espera a ainda donzela
À noite com o seu gargalo
Que o filho do rei da rolha
O vá com acerto alargá-lo.

E assim consumar-se o casamento
Conforme fora planeado
Na cama os dois impérios brindam
É o final com que o negócio fica fechado.

E do encontro da cortiça com o vidro
Apesar de estranhos e inesperados materiais
Espera-se que um varão sucessor
Aos negócios acrescente algo mais.

E da cabeça do novel varão
Virá nova matéria-prima
Que mesmo não se sabendo o que é
P’lo menos caberá na rima.

quarta-feira, 21 de março de 2018

Terra absoluta sob céu imóvel


A terra é que segura

O céu absoluto
De nuvens, imóvel.

Uma terra escanhoada
De pilares invisíveis
E que as cigarras procuram
Na ilusão duma sombra.

Uma terra de terra
Esboroada pelo tempo
E pelos homens
Que caminham
Sem direcção.

domingo, 25 de fevereiro de 2018

Um lavagante esfomeado mas politizado

Um senhor lavagante
muito elegante
passeava com a sua amante
de exaltante aroma
em plena avenida de Roma.

Sentindo alguma fomeca
entrou num restauranteperguntando
Então, não há nada que se coma?
Respondeu-lhe o empregado
um tal de tal João Alberto
Ora, caro senhor lavagante
apareceu no sítio certo!
Pois é aqui que se manja
E a vontade fica satisfeita
Pode começar por uma canja
Com muita carniça desfeita.
Para si e p'rá sua amiga
que parece desfalecer
se qualquer coisa p'rá barriga
não lhe arranjarmos p'ra comer!
Só que o nosso lavagante
Não era bem o prato do dia
A coisa que ele mais queria
mas antes algo de mais extravagante
Para rimar com lavagante.
E pondo-se com modos de artista
Pede então a lista
E ao empregado Alberto
Que não tinha cara de esperto
Mas antes a raiar para o assim-assim
Disse-lhe, todo importante
«Olhe, escolha por mim…»
Respondeu-lhe o tal Alberto
cheio de boas maneiras
isto é, come il faut,
seguindo a etiqueta:
Temos aqui um pitéu, une chose fine
um extraordinário petisco
uma receita da mais que nouvelle cuisine!
Só que inclui… marisco!
Foi então que o lavagante,
olhando para a sua companheira
virou-se
irado
para o empregado,
«Oh, meu desgraçado
saia já da minha beira!
Então oferece-nos marisco
à conta de grande petisco
a nós que viemos do mar?
Não vê que isso é suicídio
Mais talvez mais parecídio
com premeditado
homicídio?...»
E os outros clientes
despertando dum sono dogmático
deram em concordar com o lavagante
e passaram a comer vegetais
dali em diante!

sábado, 10 de fevereiro de 2018

O mínimo tempo do olhar

A pouco e pouco esquecemo-nos dos pormenores dum rosto, das suas particularidades mais notáveis, dos sinais, mesmo os mais invulgares. O rosto torna-se um mapa confuso até se transformar num apressado caldo de sensações. É por isso que o apaixonado, na incandescência do seu amor mais recente, tem dificuldade em se lembrar do seu rosto, quando à noite se esforça por recordá-lo, para que ele entre no seu sonho a seguir. Que irritante se torna termos ali o rosto do outro quase à mão de semear, como um nome à ponta de língua e não nos conseguimos lembrar. O rosto do outro ganha quase a dimensão do fantasma, de algo nebuloso, mas etéreo. Mas não esquecemos a profundidade de um olhar, o modo como o olhar nos olha, a maneira como nos sentimos olhados e nos acabamos por ver através do olhar do outro. Jorge recorda o olhar intenso de Luísa, um dia à noite na marginal, cada um dentro do seu carro, parados nos semáforos, os dois carros à distância mínima, como bólides à espera da bandeira da partida, acelerando nervosos, motores inquietos. Nesse momento sentiram ao vivo como o olhar hipnotiza os amantes, os torna incapazes de qualquer gesto, os imobiliza no auge do fascínio. À maneira da serpente. Não estavam imóveis: estavam docemente paralisados pelo olhar do outro, suspensos no tempo. Nenhum deles tinha vontade de quebrar esse encanto. Estátuas para a eternidade. Também é verdade que, naquele momento, cumpriam uma parte do seu destino: o de, no momento em que se encontram, apartarem-se por completo dos outros e das coisas e apenas celebrarem o seu espaço, o ambiente que, laboriosamente, com muito cuidado, vão construindo. Como estátuas, olhando-se, apenas escutavam o bater feliz do coração. Apenas existiam um para o outro. Aquela mulher era o seu melhor cenário, de sempre. Tomara ele tornar-se num jardim para a receber.

quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

Depilição de depilação

Rapa-se a perna, o vil sovaco, a recôndita virilha
E assim fica a dama toda escanhoada
Abandonou a  pilosa armadilha
E onde era selva amazónica virou estrada.

A mulher burguesa quer-se bem rapada

De todo o embaraço ou percalço peludo
Onde há pêlo inóspito que fique nada
Onde há pêlo a despropósito rape-se tudo.

E a pele do pêlo por fim desembaraçada
Que era apesar a sua original condição
Acha-se agora a final mais apropriada
Para a pudorada e moralista visão.

Tímido, caprichoso, anti-sético (não cético)
Eis o sempiterno pensamento burguês:
Que não aceita a mulher como ela é
E quer ver bem retocada a nudez.


José Carlos S. de Almeida (2006-2017)

domingo, 26 de novembro de 2017

A freira farinheira - a minha modesta "homenage" ao Bocage

Não é por similitude sonora
Que a nossa irmã freira
Resguardada no seu hábito
Se confunde com a farinheira

É que esta nossa pobre irmã
À cozinha devotada com amor
Entende que entre os tachos
Se glorifica também o Senhor.

Só que o mundo dos enchidos
Foi pelo Demo inventado
E ninguém a convence a deitar
Um chouriço no cozinhado.

Porque é fálica a sua forma
Suscita libidinosas insinuações
Que se a freira agarrasse no petisco
Teria escandalosas recordações.

Mas está disposta a recuar
Na rigorosa arte culineira
E em vez do erecto chouriço
Usa ‘ma engelhada farinheira.

Junta-se a santa congregação
Chegam convivas especiais
Havendo cozido à portuguesa
Nunca vêm bocas a mais.

Veio o bispo anafado
E uns auxiliares amorosos
Mais os padres habituais
Que só pecam por serem gulosos.

Quando vieram as travessas
Calaram-se os padres tementes
Porque a esta malta religiosa
Deus deu-lhes as nozes… e os dentes.

Pareciam esfomeados
Fizeram grande escarcéu
Atacaram doidos o cozido
Não fosse acabar o pitéu.

Mas o que é bom sempre acaba
Está escrito e é verdade
Mergulharam na carniça
Esqueceram a sobriedade.

Até que um religioso
Descobre a dita farinheira
E como Colombo excitado
- Eis aqui a índia inteira!

Ergue-se um coro de espanto
Gritam todos os irmões
Se anda aí a farinheira
Onde estão os colhões?

Em vão rapam a travessa
Em busca dos cujos ditos
Porém nada encontram
Queixam-se os padres aos gritos.

Porém se olhassem para a freira
E deixassem de ser lamechas
Logo as bolas descobriam
A chumaçar-lhe as bochechas.

José Carlos S. de Almeida (2008-2017)


segunda-feira, 22 de maio de 2017

O Nilo regozija-se


Oh Egípcios

Tereis de repetir todos os anos
Eternamente
A agrimensura dos vossos campos
Enquanto eu transbordar com as chuvas
E não me sustendo no meu leito
Vir-me 
embriagado
Invadindo as vossas 
cuidadas culturas.