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segunda-feira, 6 de agosto de 2018

Números que impressionam ou como a Europa esquece o seu passado


Vejamos outros números impressionantes: durante um século, entre 1815 e 1914, 55 milhões de europeus, donde perto de metade, isto é, 21 milhões, de 1871 a 1901, atravessaram os mares, naquilo que se pode considerar a maior vaga de emigração da história[1].
Perante estes números, como classificar a atitude de alguns dirigentes europeus face à emigração?


[1] Cf. Albert JOURCIN, Prologue à notre siècle 1871-1918, Paris, Larousse, 1968, p. 53.

quarta-feira, 4 de julho de 2018

Refugiados - o que dizem os números


Este problema das migrações em massa que agora preocupa a Europa e que foi objeto da última cimeira europeia em Bruxelas, dominada pelas ameaças de bloqueio por parte da Itália e das peculiares posições de Hungria e da Polónia, enquadrada no que poderíamos designar por deslocações em massa, já aconteceu na Europa, nomeadamente no seguimento do fim da Segunda Guerra Mundial. E aí, os números são impressionantes. Só na Alemanha registaram-se 17 milhões de de pessoas deslocadas e na Europa, considerada como um todo, observou-se a deslocação pela força durante a guerra, de mais de 40 milhões de pessoas[3]. O desaparecimento de comunidades estáveis, mal contidas nos territórios que foram sendo definidos por conveniências conjunturais leva à conclusão de que a Europa "já não era uma constante fixa" e passara a ser instável e transitória[4]. Estas deslocações de grande massas de população parecem ser uma constante na história recente da Europa.
Por outro lado, o que nos dizem os números sobre as recentes deslocações de refugiados que chegaram à Europa? É um número significativo? É que estamos a falar de menos de 1% da população total da União Europeia! Dramática é a situação, por exemplo, do Líbano, que alberga quase 1,2 milhões de refugiados sírios. Ora, o Líbano é um país com uma população total de cerca de 4,5 milhões de pessoas...[5]
Perante estes números e o seu real significado, não estaremos diante dum problema cuja solução se quer adiar na medida em que a crise dos refugiados está claramente a render votos aos partidos populistas e de extrema-direita? Não é por acaso que o partido de Salvini regista já uma subida nas sondagens de 8% nas intenções de voto em relação ao resultado obtido mas eleições de 4 de março. Perante um problema que traz tantos benefícios para os políticos conservadores que estão à frente da União Europeia, donde é que poderá vir um esboço de solução?



[3] Cf. Keith LOWE, Continente Selvagem - a Europa no rescaldo da segunda guerra mundial, Lisboa, Bertrand Editora, 2013, p. 55.
[4] Op. cit., p. 61.
[5] Patrick Kingsley, A Nova Odisseia - a história da crise europeia dos refugiados, Lisboa, Relógio D'Água, 2016, p. 18

quarta-feira, 27 de junho de 2018

Quando é que terminou a Segunda Guerra Mundial?

Sempre me questionei sobre o que é ser europeu. Olhava para os ingleses, para os franceses e para os 
italianos ou alemães e interrogava-me sobre o que haveria de comum entre nós para que nos pudéssemos afirmar enquanto cidadãos europeus.
Reparo que aqueles que escolhi estarão mais próximos de nós. Exclui, inconscientemente, dinamarqueses, suecos ou finlandeses, os europeus do norte. A dificuldade de haver algo em comum enquanto europeus seria de certeza maior. Mas, então, que dizer daqueles que vêm da Europa do Leste, romenos, búlgaros, húngaros, sérvios? O que temos em comum?
Nos últimos anos, a problemática em torno do que é ser europeu agudizou-se. Agudizou-se dramaticamente com a chegada ao poder de políticos populistas e de extrema-direita, xenófobos, nada interessados em acolher os outros que não são europeus. Mas, o que é então ser europeu para esses políticos? Que valores envolve a cidadania europeia?
Reconheço que sabemos pouco da sua história e da sua geografia instável. Essa instabilidade entre etnias, povos e nações, mal contidos em fronteiras desenhadas num clima de ressentimento e no rescaldo dos maiores conflitos bélicos que assolaram o continente europeu, dificulta esse conhecimento. Sei pouco sobre essa outra Europa, os compêndios escolares de História excluiram essa outra Europa, a História Universal desenhou-se sobretudo a ocidente e através do mundo descoberto por esse ocidente.
Já há algum tepo que decidi estudar e conhecer um pouco mais essa outra Europa. Provavelmente vou fazê-lo no pior período que a Europa está a atravessar. Mas talvez seja o momento mais estimulante, o momento em que a crise agudiza o nossos entido crítico.
Como pensar a Europa? Por onde começar? O historiador Keith Lowe, no seu interessantíssimo livro Continente Selvagem - a Europa no rescaldo da Segunda Guerra Mundial[1], começa por nos dar um dado importante: é que a guerra não terá terminado com a derrota de Hitler. Até refere o caso de alguns polacos para quem a segunda guerra mundial, tendo começado com a invasão do seu país tanto pelos nazis como pelos soviéticos, só teria terminado com a partida dos tanques soviéticos do seu país, em 1989.
Quer dizer, a guerra continuou, sob outras formas, porventura mais subtis, para depois de 1945. Continuou até quase ao fim do século vinte! O que aconteceu entretanto? Como foi vivido esse período? Lowe ensaia uma resposta: "o fim da guerra não significou o nascimento de uma nova era de harmonia étnica na Europa"[2]. Com efeito, os ressentimentos entre comunidades e nações continuaram e talvez isso nos ajude a compreender melhor os problemas com que nos debatemos hoje. Um problema mal resolvido é um problema que se tornou maior.


[1] Keith LOWE, Continente Selvagem - a Europa no rescaldo da segunda guerra mundial, Lisboa, Bertrand Editora, 2013, 527 pp. Vale a pena ver a apresentação do livro pelo próprio autor aqui.
[2] Op. cit., p. 18.