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sábado, 3 de março de 2018

O remorso do homem branco ou o sentimento de culpa dum adolescente desiludido


Pascal Bruckner é um filósofo e ensaísta francês, nascido em 1948 e geralmente associado ao neoconservadorismo europeu[1]. Contudo, o seu percurso, como muitos intelectuais franceses que estiveram ligados ao grupo dos «nouveaux philosophes» de que fazia parte André Glucksman e Bernard Henri-Lévy, também teve o seu passado esquerdista, concretamente ligado ao maoísmo e que, tal como os seus compagnons de route, desenvolveu uma crítica feroz (ou ressentida) ao marxismo, como que para expurgar os demónios da adolescência. Percurso que também encontramos entre muitos políticos e intelectuais portugueses.
De Bruckner, autor de vasta obra, muitas vezes dedicada a uma reflexão sobre as relações amorosas na contemporaneidade e outros temas do viver quotidiana, surgiu em 1983, Le Sanglot de l'Homme Blanc, e que foi editado entre nós com o título O Remorso do Homem Branco[2].
Basicamente, Pascal Bruckner tenta denunciar a má consciência e remorso dos europeus que procede a um ajuste de contas com o passado colonial do continente europeu.
Demonstra que há uma evolução política que anima uma certa intelligentsia de esquerda e que vai do anti-colonialismo do pós-guerra para o terceiro mundismo dos anos 60. Aqueles setores da esquerda estão, assim, desiludidos com a ausência de perspetivas políticas na Europa, mas ganham um certo ânimo com o ódio de si, alicerçado na ideia de que o homem branco é mau, o que vai provocar um desejo de arrependimento e penitência, abrindo um caminho de expiação militante, apesar de coabitar com a indiferença da maioria da população face aos países subdesenvolvidos.
Os terceiro-mundistas seriam animados por uma "confusa certeza": a da infâmia do Ocidente[3].
É assim que muitos progressistas europeus estariam dispostos a auto-punir-se e auto-imolar-se para "resgatarem as obrigações contraídas pelos seus pais"[4].
Ao mesmo tempo, esta auto-flagelação do homem europeu elege os EUA como bode expiatório, um alvo ideal por se tratar ainda dum parente próximo. A América seria a "filha desnaturada", enquanto a península europeia, para se libertar da sua má consciência que lhe advinha do seu passado colonial, se tornava num "novo departamento do Terceiro Mundo"[5]!
Ora, esta pretensa denúncia das propostas multiculturalistas acaba por ser a sua encapotada confissão dos seus amores pela economia capitalista e pela cultura burguesa e conservadora. Não era sem razão que o americano Irving Kristol, outro teórico do neoconservadorismo, defendia que o problema da economia capitalista não era uma questão económica mas cultural e que o combate era ainda um combate no campo ideológico. Por isso (ou para isso) também, modestamente, cá estamos.



[1] Entre nós foi publicado pela Gradiva, em outubro de 2017, Um Racismo Imaginário Islamofobia e Culpabilidade, tradução do original que apareceu em França no início de 2017. Retoma aqui algumas das suas ideias fundamentais contra o multiculturalismo e o racismo dos anti-racistas. Sobre esta última tese, ver aqui.

[2] Pascal Bruckner, O Remorso do Homem Branco, Lisboa, Publicações Dom Quixote, 1990, 265 pp.
[3] Cf. Pascal Bruckner, op. cit., p. 31.
[4] Op. cit., p. 32.
[5] Op. cit., p. 37.

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

O multiculturalismo segundo o neoconservadorismo norte-americano

Irving Kristol (1920-2009). Este americano, apesar de conhecido jornalista, enquanto um dos editores do Wall Street Journal, acabou por ficar conhecido como um dos fundadores do neoconservadorismo. Ficou conhecida a seu descrição de um neoconservador: um liberal que foi assaltado pela realidade. Descrevia, assim, uma eventual evolução de alguns intelectuais liberais e de esquerda que teriam guinado à direita, depois de constatarem a improbabilidade das suas ideias, a deceção das experiências liberais e a dura e triste realidade, negando todas as ilusões pueris. Aliás, o próprio percurso de Kristol ilustra esse mesmo processo: do radicalismo socialista e do trotskismo da juventude, "evoluiu" até ao mais radical anticomunismo. Um percurso que também encontramos entre nós, de forma abundante e bem esclarecedora. Entre nós, publicou-se a sua obra de referência: Neoconservadorismo - autobiografia de uma ideia[1], e que reúne vários artigos.
Ora, por ter tido necessidade de preparar umas aulas sobre o multiculturalismo, acabei por regressar  a este livro de Irving Kristol, detendo-me, precisamente, num dos seus artigos de 1991 intitulado «A tragédia do multiculturalismo»[2].
Neste curto artigo, Kristol reflete sobre o multiculturalismo no âmbito da educação. É assim que o define como o esforço excessivo levado a cabo por alguns educadores no sentido de alargar o currículo convencional de forma a confessar as minorias étnicas, nomeadamente, os jovens negros, como "estratégia desesperada - e condenada à nascença - para fazer face às [suas] deficiências educacionais [...] e às patologias a eles associadas"[3]. Esta estratégia também contemplaria outros grupos minoritários de origem hispânica e oriental. Embora, considera Kristol o processo de americanização ´o objetivo central dos progenitores, pelo que não manifestariam preocupações de natureza multicultural. Esse processo de integração, constata Kristol, que não tem funcionado tão bem para os negros americanos conduz ao "desespero que fez com que nos voltássemos para o multiculturalismo"[4] e a procura de instrumentos e estratégias que ampliem o currículo. Só que, afirma Kristol, os problemas dos jovens negros eram um produto do lar e do ambiente e não um problema de educação.
No entanto, Kristol denuncia o multiculturalismo enquanto problema nacional e a sua propagação através duma "coligação de nacionalistas-racistas negros, feministas radicais, gays, lésbicas e um punhado de demagogos potenciais que se dizem representantes de várias minorias étnicas"[5]. E conclui que o multiculturalismo desta coligação é "uma ideologia cujo programa educativo é, acima de tudo, anti-americano e anti-ocidental". Ora, é aqui que se revela o quiprocuó do nosso neoconservador em relação ao multiculturalismo: é que esta ideologia radical insere-se na guerra contra o Ocidente e contra a América, infiltrando-se no sistema educativo! O multiculturalismo, segundo Kristol, revelaria uma ofensiva contra os valores da América e do Ocidente, uma ofensiva ideológica debaixo de uma narrativa eivada de preocupações pedagógicas. [a continuar]



[1] Irving Kristol, Neoconservadorismo - autobiografia de uma ideia, Lisboa, Quetzal Editores, 2003, 482 pp.
[2] Op. cit., pp. 66-69.
[3] Op. cit., p. 66.
[4] Op. cit., p. 67.
[5] Op. cit., p. 68.