quarta-feira, 25 de outubro de 2017

Apontamentos sobre Platão, a alegoria da caverna e o sentido e missão da Filosofia

           
                Apresentação

            A "alegoria da caverna" constitui um excerto do livro VII de A República (514a - 517c) [1], uma das obras mais conhecidas de Platão. Trata-se duma situação descrita por Platão para nos elucidar sobre o que pensa da condição humana relativamente à posse ou ausência de educação e conhecimento. Platão, através do personagem Sócrates, descreve a situação vivida por um grupo de prisioneiros no interior duma caverna, onde estavam acorrentados desde sempre, mantendo-se virados para uma parede onde vêem desfilar sombras de figuras que passeiam fora da caverna que transportavam consigo vários objetos, entre os quais estatuetas. Tudo se altera quando um dos prisioneiros se liberta (com ajuda ou não, não sabemos) e percorre dolorosamente o caminho íngreme e pedregoso que o leva até ao exterior da caverna. Aqui constata que as sombras que viam eram o reflexo de pessoas reais que uma fogueira iluminava, projetando as suas sombras no fundo da caverna. Aos poucos vai observando, com dificuldade pois os seus olhos estavam habituados a viver desde sempre numa quase total escuridão, a realidade exterior. Nomeadamente, a sua própria imagem refletida na água. Até que consegue contemplar diretamente o Sol, fonte de luz e vida. Entretanto resolve regressar ao interior da caverna, para contar aos seus companheiros o que lhe vir e como estavam enganados em relação à realidade. Quando o faz, os seus companheiros acham que ele não está bom da cabeça, que variou com a ida à realidade exterior. E, não aceitando o que ele lhes conta, chegam ao ponto de o quererem matar.
            Várias ideias estão supostas neste conhecido texto de Platão. É possível, a partir da "alegoria da caverna", retirar algumas considerações sobre o papel da Filosofia e do Filósofo. É que nesta perspetiva, como veremos, Platão associa a atividade filosófica à própria atividade educativa que se irá exprimir sob a forma literária do próprio diálogo[2]. É isso que pretendemos fazer. Contudo, vamos primeiro situar a vida e obra de Platão na Grécia antiga e esta no contexto da história e cultura do mundo ocidental.



            A época de Platão

            a) Atenas
            Atenas conhece o seu apogeu cultural, artístico e social nos séculos V-IV a.C., nomeadamente durante a governação de Péricles e que se exercerá de 444 a 431 a.C. Esse apogeu [vds] também assinala a sua supremacia política e económica no mundo grego. O fim da hegemonia política da cidade ática sobre o mundo grego acontecerá no fim do século V; posteriormente, durante o século IV, essa supremacia manter-se-á nos planos económico e cultural. [desenvolver]

            b) A importância da palavra e o prestígio dos Sofistas
            Em Atenas,a palavra e o discurso são fundamentais: na organização política, no governo da cidade, na disputa em tribunal, nos debates nas assembleias. O bom orador consegue melhor os seus objetivos: dominar o auditório, ganhar um processo privado, convencer o interlocutor. "Em Atenas, para existir, é preciso saber falar"[3].
            Daí o prestígio de que gozam os sofistas: vão de cidade em cidade ensinando a arte de bem falar à jovem classe política em ascensão. Eles desenvolvem e ensinam não um verdadeiro saber sobre as coisas, mas tão-só um saber aparente, um saber falar sobre as coisas, adaptando o discurso às circunstâncias, às pretensões dos oradores e às expetativas e desejos do auditório. Por isso, tanto se pode dizer da justiça e do justo uma coisa e, no momento seguinte, o seu contrário. Tanto se pode dizer que ser justo é tratar os outros de forma igual, como afirmar que ser justo não é tratar os outros de forma igual. O que interessa verdadeiramente é o propósito e o efeito que se pretende alcançar com o discurso. A palavra e o discurso acabam por ser acessórios, adereços, instrumentos ao serviço dos interesses políticos privados. A palavra, o logos, já não está ao serviço do ser. Houve um tempo em que falar era dizer o ser das coisas, sem subterfúgios. "Neste período feliz da humanidade, falar era dizer o ser: uma ação dita corajosa merecia realmente louros e uma ação dita virtuosa merecia efetivamente ser louvada. O logos dizia as coisas tal como elas eram e os homens só tinham que se entregar a ele"[4].
            Ora, a Atenas clássica surge-nos aturdida [vds] e baralhada com os discursos que estão ao serviço dos interesses privados e pretendem manipular os auditórios. Os discursos contradizem-se entre si e apresentam-se como verdadeiros apesar de afirmarem tanto uma coisa como o seu contrário. o célebre sofista Protágoras ensina-nos que "o homem é a medida de todas as coisas...". Isto é, o ser das coisas depende do que cada um acha.
            Aos poucos, a flexibilidade e ambivalência da linguagem infetam e contaminam o próprio ser das coisas. Este acaba por se tornar também ambíguo, inconsistente, cinzento. [continua]

            c) A oposição de Sócrates
            A tudo isto se vai opôr Sócrates, que recusa este aviltamento [vds] do logos e do ser. Daí a sua incessante procura das definições das coisas e dos conceitos, um  aspeto essencial nos seus diálogos e que acabam por os dominar e que Platão nos irá revelar. É assim que se interroga sobre o que é a coragem (Lacques), a piedade (Eutîfron), a sabedoria (Cármides) [vm]. Sócrates interroga os seus concidadãos (dialética), não só para colocar em causa o saber aparente que os seus interlocutores possuíam e exibiam de forma arrogante (ironia), como também os conduzia à produção de novos e verdadeiros saberes (maiêutica) através do achamento das definições. Perante os seus concidadãos dominados pela lógica sofística, Sócrates dirige-lhes a mesma interrogação: o que é?, pretende joeirar o seu discurso, afastar as definições (e ideias) contraditórias e inconsistentes [vds]. "Reencontrar o acordo perdido do logos com as coisas é o sentido da procura socrática"[5].

            d) A morte de Sócrates e o seu significado
            Consideram alguns que a filosofia de Platão nasce de um acontecimento escandaloso e traumático para o jovem Platão, com 28 anos na altura: a condenação à morte de Sócrates, ocorrida em 399 a.C. Com efeito, para além do choque que foi a morte do mestre, também é verdade que toda a sua obra é posterior àquela data[6]. Talvez se possa, por essa razão, afirmar que a morte de Sócrates irá ser decisiva no despoletar e sentido da sua obra, pelo menos no que respeita aos primeiros escritos[7]. Platão não poderá deixar de, após o choque inicial, interrogar-se sobre o que levou os atenienses e o seu governo a condenarem aquele que, para lá dos reiterados diálogos, se preocupava em encontrar o logos exato, o dizer rigoroso das coisas e, desse modo, revelar (ou desocultar) o autêntico ser das coisas.

            e) Vida e obra de Platão [desenvolver mais]
            Platão nasceu em Atenas, por volta de 428-427 a.C.
            Em 429 a.C., tinha morrido Péricles, grande político, cujo nome estará para sempre associado ao período de ouro da democracia ateniense. O fim do século V a.C. assinala o fim desse período grandioso, antecedido (431-404 a.C.) pela desgastante guerra do Peloponeso entre Atenas e Esparta. Também neste período, em 425 a.C., ocorre a morte de Heródoto, denominado «pai da História»; em 406 a.C. falecem dois dos três grandes dramaturgos trágicos da Grécia clássica: Sófocles e Eurípides (o terceiro nome seria o de Ésquilo). O comediógrafo Aristófanes morrerá em 385 a. C.
            Em 388 a.C. viajará até Siracusa.
            No ano seguinte fundará a Academia, a sua escola.
            Será depois dos diálogos de juventude[8], que entre 385 e 370 a.C., Platão escreverá os diálogos considerados da maturidade: O Banquete, Fédon, A República, Fedro. Nestes, e sobretudo nos diálogos da velhice (Parménides, Teeteto, Sofista, Político, Filebo, Timeu, Crítias, Leis), o personagem principal continua a ser Sócrates, só que Platão coloca na boca daquele, ideias e propostas que são exclusivamente suas.
Em 367 a.C. e em 361 a.C., Platão deslocar-se-á novamente a Siracusa. Até que se estabeleceu definitivamente em Atenas a partir de 360 a.C., onde morrerá em 347 a.C.


            A Alegoria da caverna

            a) Escuridão e luz, educação e sua falta
            Platão indica, através de Sócrates, qual a sua intenção ao descrever a situação dos prisioneiros: refletir sobre "a nossa natureza, relativamente à educação ou à sua falta". Ora, a educação e a sua falta correspondem a estados mediados pela luz e a sua falta. A falta de educação corresponde à situação dos prisioneiros no interior da caverna. A falta de educação corresponde à falta de luz ou de iluminação, tal como viver na obscuridade é como viver numa ignorância quase absoluta. E não se trata duma ignorância absoluta porque, de facto, os prisioneiros também não vivem na escuridão absoluta; é que, para poderem ver alguma coisa, mesmo sombras, terá sempre que existir alguma réstea de luz (e de esperança); será este resíduo de conhecimento que permitiu que um dos prisioneiros se libertasse ou, pelo menos, caminhasse para a luz. Da escuridão absoluta nada poderia resultar, nenhuma evolução seria possível. Essa centelha de luz pode ser dada pela dúvida, por exemplo. A dúvida é sinal de alguma luz, tal como não duvidar pode ser sinal de uma escuridão absoluta onde se mergulhou. Só duvida aquele que já sabe alguma coisa, mesmo que seja um saber que nada sabe[9].
            Por todas estas razões, o objetivo imediato da educação será a passagem da ignorância ao conhecimento, ilustrado pela metáfora da passagem das trevas à luz, através duma caminhada ascensional.
            Contudo, apesar da quase ignorância total, a realidade para esses prisioneiros não lhes levantava quaisquer problemas, era-lhes evidente (ou elementar, meu caro Watson?). Os prisioneiros tomam por única e verdadeira realidade as sombras que vêem e sempre viram desde que nasceram. Os prisioneiros estão cativos, por isso, das suas crenças, com base nas informações dos sentidos, escudados na sua educação ou na sua falta. Assim, desconhecem a sua situação e condição. Vivem uma situação de dupla ignorância: são prisioneiros que desconhecem que estão presos; desconhecem e ignoram que desconhecem. Tal como o que se passa com o mais escravo dos escravos, que é aquele que não é livre julgando-se livre. Pior que a ignorância é a ilusão, tal como o pior cego é aquele que não quer ver. De qualquer modo, constataremos em Sócrates a existência reiterada duma valorização positiva do reconhecimento da própria ignorância. É que só o ignorante que se reconhece enquanto tal, está predisposto a saber e a conhecer. Aquele que julga que já sabe, ficará por aí, fica imune ao impulso para o saber. A posse arrogante de um pretenso saber não estimula, antes pelo contrário, o sujeito a saber mais. Se já sabe, porque é que há-de querer saber?
            A situação que se vive no interior da caverna descreve a nossa situação. Os prisioneiros representam-nos a nós próprios, representam a própria Humanidade. Tal como eles, também nós vivemos num mundo ilusório, artificial, feito de ecos e de ilusões, de miragens, isto é, de simulacros da realidade. A ilusão é total: estamos assim desde sempre e completamente. Porém, esta prisão também nos garante alguma segurança e conforto. A prisão pode ser a nossa zona de conforto, do não-confronto.
            A educação será, assim, a passagem da ignorância para o conhecimento. A inteligência e o conhecimento processar-se-ão progressivamente, gradualmente, discursivamente. O conhecimento corresponde a uma deslocação do sujeito do ilusório para o mais real, do mais obscuro para o mais luminoso.

            b) O prisioneiro que se liberta
            O prisioneiro que surge liberto dos grilhões (sem sabermos muito bem como isso aconteceu) vai realizar o efetivo caminho ascensional que o leva (ou eleva) do fundo da caverna até ao mundo exterior. Por várias vezes, Platão associa este caminho a um processo doloroso. Doloroso e difícil, não só devido à própria natureza do chão que pisa, mas também devido às dificuldades e dores que sente ao iniciar movimentos, a erguer-se e a caminhar e, depois, a enfrentara  luz. Tudo porque estava a contrariar velhos hábitos: a imobilidade e a obscuridade em que sempre vivera. Toda a sua subida e descoberta vêm contrariar [vds] uma vida que consolidara hábitos e crenças que se instalaram no seu corpo e na sua mente.
            Daí que também se possa dizer que a dificuldade do caminho ascendente também possa remeter-nos para a dificuldade do próprio exercício da liberdade: ter que caminhar com as pernas que nunca caminharam, fazer um caminho caminhando sem qualquer indicação sobre o caminho a seguir. Ou seguindo apenas a via da luz que se anuncia ao fim do túnel...
            A libertação da situação de prisioneiro no interior da caverna irá pressupor uma conversão radical que envolve o corpo (que pela primeira vez se movimenta), o espírito que descobre o mundo para além das sombras e, afinal, o próprio sujeito na sua totalidade, que pela primeira vez se re-flete e vê a si mesmo e, portanto, se descobre, como que pré-anunciando a posteriori a célebre palavra de ordem ou divisa "conhece-te a ti mesmo" do mestre Sócrates, consagrando aí a chamada viragem antropológica da filosofia por comparação com as preocupações naturalistas dos filósofos anteriores.
            Assiste-se, pois, a uma conversão, a um convertere [vm], um voltar-se inteiramente, virando-se para o sítio certo[10]. O processo é doloroso, tal como um parto é doloroso, convocando as dores necessárias para que nasça um novo ser, um homem convertido ao conhecimento, renascido, ou não fosse Sócrates filho duma parteira e de um escultor [vm].
            A conversão de todo o nosso ser suporá uma renúncia ao mundo anterior, às suas convicções antigas, uma dolorosa ruptura. Ou uma saborosa ruptura, tendo em conta a aventura que começa e as descobertas que se anunciam.
            Uma ruptura também em relação à perspetiva que se tinha: os prisioneiros estão presos das vistas que (não) tinham, já estavam virados para uma parede. O prisioneiro que se liberta ganha uma nova perspetiva, um novo olhar que é também olhar para o sítio certo.

            c) O prisioneiro que regressa - o filósofo comprometido
            Depois de ter tomado conhecimento da realidade exterior e reconhecido a sua situação anterior, o prisioneiro que se liberta decide regressar até junto dos seus anteriores companheiros. Podia não ter decidido assim; podia ter optado por permanecer na realidade exterior, de que ninguém duvida que era mais colorida e agradável. Portanto, algo o impele a voltar até ao fundo da caverna e contactar com os outros prisioneiros. De que natureza é esse impulso que o faz regressar?
            Ao que parece, o prisioneiro que se libertara não adquire apenas conhecimento, mas também um certo sentido do dever. Ele não protagoniza apenas um novo conhecimento, mas também um certo sentido do dever, uma certa forma de exercer a ética.
            Provavelmente, devemos concluir que não existe conhecimento sem ética, que são elementos inseparáveis, mesmo que disso não se tenha consciência ou não seja suficientemente claro. O que acontece é que um conhecimento mais autêntico envolve o conhecimento da virtude (aretê), um conhecimento de o que se deve fazer.
            Ora, este prisioneiro que se libertara e atinge um conhecimento superior[11], personifica o filósofo e a missão da filosofia. E o verdadeiro lugar onde o saber se joga, o lugar de destino da filosofia e do filósofo não é uma torre fechada, protegido ou imune do/ao contacto com a realidade, a rua, os desabrigados.
            Existe uma dimensão ética no conhecimento. Que verdade é essa que, depois de adquirida e possuída, não nos leva ao re-encontro com os outros, com os nossos semelhantes? O conhecimento que conduz o seu possuidor a fechar-se aos outros, a encerrar-se em si mesmo num espaço próprio e inacessível, não é um conhecimento elevado, autêntico. Tal como o seu possuidor não merecerá ser conhecedor [vm]. O sábio é, por isso, também, um ser virtuoso, um ser de excelência. Se sabe, se conhece, então também conhece a virtude, o dever de ser solidário. O conhecimento que nos toca, leva-nos aos outros, obriga-nos a essa preocupação com os outros. O prisioneiro que se libertara e que passara pela experiência do conhecimento não pode ficar indiferente em relação aos seus companheiros de infortúnio. Ele não poderia esquecê-los.
            Conhecer implica o dever de regressar até junto dos desafortunados. A filosofia implica, pois, a pólis, a cidade, tal como é implicada pela pólis. Aquele que sabe não pode ficar quieto, antes recebe novas razões para continuar inquieto. Um filósofo nunca está parado, porque permanentemente procura saber e partilhar esse saber. Um filósofo quieto ou aquietado é uma contradição nos termos.

            d) O risco da Filosofia
            Por isso, o indivíduo regressa, mesmo que isso signifique ter que lidar com a ignorância, a indiferença, o escárnio, as ameaças, mesmo ameaças de morte como acaba por suceder. Regressa assumindo o risco. Mas também não houve já quem tivesse pago esse dever com a própria vida? Pagar com a vida o amor ao saber, que é amor aos homens.

            e) A dificuldade de transmitir (certos) conhecimentos
            O regresso significa a verdadeira preocupação com a educação (dos outros). E é com a educação dos outros que se exercita a política.
            Só que a simples transmissão de conhecimentos nunca será suficiente para os homens, para aqueles homens, presos às suas crenças e perspetivas de sempre. Quando se pretende uma alteração de postura e visão do mundo, a aquisição de novos conhecimentos e de uma nova atitude, enfrenta-se a dificuldade de ensinar. É que o conhecimento mais autêntico não é facilmente transmissível. A última mensagem da alegoria tem a ver com o modo como se transmitem conhecimentos. A missão do prisioneiro quando regressa para junto dos outros acaba por não correr bem. Platão sabe disso. E por isso recorre à alegoria. Platão não ensina, sugere, impele o outro para conhecimento, mas espera que seja o outro a realizar o caminho,a  caminhar. O conhecimento verdadeiro e superior não é transmissível; só se pode adquirir experienciando, vivendo a sua dolorosa aquisição. O que o filósofo pode fazer é levar os outros a caminhar, mas nunca descrever um caminho.


Bibliografia

Obras de Platão
Platão, A República, Introd. e trad. de Maria Helena da Rocha Pereira,  Lisboa, F. C. Gulbenkian, 1980 - 3ª ed., 500 pp.
Platão, A Apologia de Sócrates, Introd., notas e versão de Manuel dos Santos Alves, Lisboa, Livraria Popular Francisco Franco, 1985, 82 pp.

Outras obras de consulta
- Alexandre Koyré, Introdução à Leitura de Platão, Lisboa, Ed. Presença, 1979, 132 pp.
- Anthony Kenny, História Concisa da Filosofia Ocidental, Lisboa, Temas e Debates, 1999, 460 pp.
- António Pedro MESQUITA, Introdução ao Estudo da Filosofia Antiga, Lisboa, Edições Colibri, 2006, 249 pp.
- Christophe Rogue, Compreender Platão, Porto, Porto Editora, 2002, 224 pp.
- E. A Dal Maschio, Platão - a verdade está noutro lugar, Lisboa, Cofina Media, 2015, 140 pp.
- Emanuele Severino, A Filosofia Antiga, Lisboa, Ed. 70, 1986, 207 pp.
- F. Cabral Pinto, Sócrates - um filósofo bastardo, Lisboa, Livros Horizonte, 1985, 128 pp.
- Francesco Adorno, Sócrates, Lisboa, Ed. 70, 1986, 166 pp.
- Gaston Maire, Platão, Lisboa, Ed. 70, 1986, 117 pp.
- Giorgio Colli, O Nascimento da Filosofia, Lisboa, Ed. 70, 2001, 101 pp.
- Indro Montanelli, Historia de los Griegos - Historia de Roma, Barcelona, Plaza & Janes Editores, 1976, 634 pp.
- Simone Manon, Para Conhecer Platão, Lisboa, Instituto Piaget, 2001, 170 pp.
- Vasco de Magalhães VILHENA, O Problema de Sócrates - o Sócrates histórico e o Sócrates de Platão, Lisboa, F. C. Gulbenkian, 1984, 596 pp.





[1] Platão, A República, Introd. e trad. de Maria Helena da Rocha Pereira,  Lisboa, F. C. Gulbenkian, 1980 - 3ª ed., pp. 317-321.
[2] "Platão chama «filosofia», amor da sabedoria, à própria indagação, à própria atividade educativa, ligada a uma expressão escrita, à forma literária do diálogo". Cf. Giorgio Colli, O Nascimento da Filosofia, p. 13.
[3] Christophe Rogue, Compreender Platão, p. 10.
[4] Christophe Rogue, op. cit., p.12.
[5] Christophe Rogue, op. cit., p. 13.
[6] Cf. Rogue, op. cit., p. 19.
[7] Será após a morte de Sócrates em 399 a.C. que Platão iniciará a sua produção filosófica, com a escrita dos seus primeiros diálogos: A Apologia de Sócrates, Críton, Protágoras e Êutifron, entre outros.
[8] Cf. nota 7.
[9] Ver aqui o significado da Aufklärung, do movimento das Luzes. E como Kant, em Was ist die Aufklärung, respondia à pergunta. Ora, para Kant, as Luzes eram a saída do homem da sua menoridade, menoridade de que ele próprio era responsável. E concluía com um apelo: Sapere aude! Ousa pensar!
[10] "A educação seria, por conseguinte, a arte desse desejo, a maneira mais fácil e mais eficaz de fazer dar a volta a esse órgão, não a de o fazer obter a visão, pois já a tem, mas, uma vez que ele não está na posição correcta e não olha para onde deve, dar-lhe os meios para isso." (Platão, A República - 518d, ed.cit., p. 323).
[11] Conhecimento superior quer pelo tipo de conhecimento, quer pela natureza dos objetos que aí são conhecidos.

domingo, 22 de outubro de 2017

Leituras dominicais: Alfredo Pimenta impiedoso retrata a Causa Monárquica

Ando há dois dias a deliciar-me com a leitura da recente obra de Paulo Drumond Braga, Nas teias de Salazar - D. Duarte Nuno de Bragança (1907-1976) - entre a esperança e a desilusão [1], quando dou de caras (p. 167) com a descrição impiedosa que Alfredo Pimenta faz da Causa Monárquica em carta dirigida a Salazar. Imediatamente comecei a vasculhar no meu desarrumado amontoado de livros que é o meu escritório e lá encontrei o volume que reúne a correspondência trocada entre o medievalista e doutrinador monárquico Alfredo Pimenta (1882-1950) e Salazar[2]. Por se tratar dum retrato tão elegante quanto impiedoso e que se pode aplicar a mais gente, moça e recente, não resisto a deixar aqui a passagem mais completa em que Alfredo Pimenta carateriza a Causa Monárquica e os seus dirigentes, sossegando Salazar em relação às movimentações monárquicas[3].
"A direção da Causa tem andado por mãos de jarrões ocos - alguns, esplêndidas pessoas, de caráter íntegro, mas analfabetos, ou, o que é pior, ilaqueados nas malhas de Doutrinas que fizeram o seu tempo e não são mais do que cadáveres que a higiene manda sepultar; ou de caciques eleiçoeiros vivendo apenas dos jogos da vermelhinha das assembleias eleitorais; ou de argentários, muito orgulhosos das contribuições com que concorrem para isto ou para aquilo; ou de ginjas, muito reumatizados ou arteriosclerosados, sem vontade nenhuma de deixar as botijas de água quente ou os sapatos de ourelos - mas que se considerariam ofendidos na sua honra se fossem dispensados de funções que não podem desempenhar.
Rodeie V.ª Ex.ª estes excelentes cavalheiros de um bando de cretinos muito falados nos carnets mundanos - e aí terá o Estado Maior da Causa Monárquica - isto desde 6 de outubro de 1910, até hoje, 8 de outubro de 1940."




[1] Paulo Drumond Braga, Nas Teias de Salazar - D. Duarte Nuno de Bragança (1907-1976) - entre a esperança e a desilusão, Lisboa, 2017, Ed. Objectiva - Penguin Random House, 358 pp. A este excelente e agradável livro voltarei com o cuidado que lhe é devido.
[2] Salazar e Alfredo Pimenta - Correspondência 1931-1950, prefácio de Manuel Braga da Cruz, Lisboa, 2008, Verbo, 439 pp.
[3] Alfredo Pimenta era polémico e não deixava nada por dizer. Não foi por acaso que em 1943, até o próprio Cardeal Patriarca D. Manuel Cerejeira o condena como "escritor perigoso", por causa das suas declarações pró-nazis.