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quinta-feira, 19 de abril de 2018

A palavra livro e a palavra balão


Para quem ama os livros, como eu, reconheço que a palavra Livro não é particularmente bela, à altura da realidade que refere. Não é uma palavra bem dotada.
A palavra que referisse essa realidade que temos designado por livro, para já livro, devia ter o significado intrínseco que encontramos, por exemplo, na palavra balão.
Quando eu digo balão, quando me deparo com a palavra balão, eu já estou a segurar um balão, um balão que salta, que voa, um balão cheio de ar, elástico, onde eu, ao agarrar com as mãos, afundo os meus dedos em garra. Agarro em garra o balão. Quando eu digo balão eu já estou a agarrá-lo com as mãos. A apertá-lo. Não se passa isso com o livro. E tenho muita pena. Essa fantástica realidade que contribuiu ao longo da História para estruturar as sociedades merecia uma fantástica palavra. E não é o caso.
Era uma palavra muito complicada. Tinha de ter cheiro. Tinha de ser desfolhada e em cada folha despertar surpresa, energia, vontade de saber, muita emoção… Deveria ser uma palavra muito distante da que dispomos.

terça-feira, 13 de junho de 2017

Apalavrado, ficar apalavrado

Quando um negócio ficava apalavrado isso significava que os intervenientes no negócio, no contrato, já tinham abordado (pela palavra) os seus termos essenciais e, portanto, o negócio já estava delineado no fundamental e já se poderia fechar, isto é, concluir.
Depois de apalavrado ele poderia ficar reduzido a escrito. Mas reparemos, desde já, que esta transposição do registo do apalavrado (oralidade) para o registo escrito irá conduzir sempre a um excesso que o contrato (escrito) deve, num momento de conformação segundo os modelos em uso, delapidar, reduzir, limar.
A escrita vai, assim, excluir o supérfluo do farelório, joeirar o discurso.
Mas tempo houve em que não era preciso reduzir a escrito o negócio. Nessa altura, bastava a palavra dum homem para ele se sentir obrigado e os outros acreditarem nessa obrigação. A sua palavra servia de penhor, era a marca da sua honra. Palavra de honra…
O negócio apalavrado não ficava com esse aspeto de provisoriedade que não daria segurança aos intervenientes. Não, estava apalavrado e isso era suficiente. Aliás, nessa altura, poucos sabiam ler e escrever. Registar por escrito os termos do negócio era meio caminho para armadilhar os analfabetos, isto é, quase sempre os mais humildes e pobres. Com este condicionalismo, mais valia apalavrar, manter o negócio apalavrado. Era suficiente para homens de palavra.
Lembro-me de ir com a minha mãe, tinha uns 6 anos, à feira do gado, às segundas-feiras, ajudar o meu avô na venda dalgum animal, quase sempre uma vaquita. Gostava dos ambientes das feiras, do cheiro a gado, das barracas de pano onde se bebia e comia e onde cheguei a ir almoçar numas mesas compridas e que se partilhava com quem quer que fosse, quase sempre um desconhecido com quem acabávamos, inevitavelmente, por conversar. Ora, nessas barracas da feira, os homens que negociavam o gado, costumavam fechar o negócio, era assim que o meu avô fazia, indo aí beber um copo de vinho. O negócio fechava-se com palavras que acabavam por molhar, pois já tinham as gargantas secas por causa do pó que soltava do terreiro da feira e de tanto apalavrar.

sábado, 13 de maio de 2017

O arquivo morto

Os portugueses usam uma expressão interessante quando se referem a alguém que, continuando ligado à empresa ou instituição, passou a não exercer nenhuma tarefa, ficando o dia todo quieto a um canto, esquecido. Diz-se, nesse caso, que foi posto na prateleira. Nas escolas, quando algum professor era vítima de doença que o limitava no exercício das suas funções, deixava de poder lidar com os alunos. A sua incapacidade fazia com que não pudesse continuar a dar aulas sem, no entanto, passar à situação de aposentação por invalidez. Nestes casos, a direcção da escola costumava retirar-lhe as turmas, embora o que se passasse, efetivamente, é que ele é que era retirado às turmas. Este professor correria o risco de ir parar à prateleira, não fosse a direcção das escolas ter a luminosa ideia de o colocar na biblioteca da escola. Na grande maioria das escolas era esta a saída para o problema. Uma solução para o infausto professor, não para a biblioteca. Esta podia ganhar pouco com este novo colaborador, mas a "solução" também revelava o entendimento muito difundido sobre o papel das bibliotecas escolares. O professor estava incapacitado, mas como se partia do princípio que ninguém ía à biblioteca e que o professor que aí estivesse fica sossegadinho e apenas se limitava a bocejar e a vigiar o voo dos livros, então a biblioteca podia ser esse lugar de exílio. Ou melhor, atendendo ao caráter "terapêutico" do desfecho, podia encarar-se a estadia na biblioteca como uma ida para as termas.
Mas estes procedimentos não aconteciam apenas com docentes que apresentassem uma situação clínica que desaconselhava a continuação da atividade docente e, por isso, íam parar à biblioteca.

Em 2010, aconteceu o caso duma jovem professora de Mirandela que posou nua para a Playboy. O escândalo, imediata e amplamente divulgado na imprensa e nas redes sociais, exigiu uma rápida resposta da administração educativa. Com efeito, foram-lhe retiradas as turmas e, deste modo, lá foi parar à prateleira. Só que não podia ir parar à biblioteca, pois temia-se o contacto da ousada docente com as almas puras e ingénuas dos meninos. Neste caso, optou-se por esconder a professora no arquivo municipal, onde não deveria contactar com o público e poderia ganhar alguma alergia na pele, por causa do pó dos canhenhos e das actas nunicipais, o que seria uma espécie de castigo divino. Ora, longe da vista, longe da tentação. O arquivo municipal não é lugar que se frequente, mas onde se deposita aquilo que já não interessa. Não era o caso da professora, bem pelo contrário. Mas ao "arquivar-se" a professora, arquivava-se o problema, arrumava-se a questão. É essa a função das prateleiras e do arquivo morto: continuando tudo desarrumado, fica tudo arrumadinho.
(As coisas e as palavras)

terça-feira, 9 de maio de 2017

Cada macaco no seu galho

Numa das minhas aulas em que falava aos alunos sobre a verdade e o discernimento, ilustrei o que estava a dizer com um dito da linguagem quotidiana: "cada macaco no seu galho".  A verdade e a busca da verdade obedeceriam a esse lema. A verdade implica discernir, recortar a imagem do confuso amontoado de representações, estabelecer e destacar a nitidez única de cada objeto. Cada macaco no seu galho para superar a confusão, a indistinção. Desse modo obteremos uma representação verdadeira. Mais ou menos. O que procura esse dito? Que não haja dois macacos ou mais num único galho, que estejam, por isso, bem distribuídos, porque possivelmente essa é a melhor maneira de a árvore segurar os macacos e se evitar a confusão que resultaria duma distribuição aleatória dos macacos na árvore. A verdade é também uma maneira de eliminar a confusão. Na altura, reparei que essa era também a melhor maneira de promover a paz entre os macacos. Isso queria dizer, que a verdade era necessária para a paz social, que não podia haver concórdia sem verdade. Ou, dito de outro modo, não há paz entre os homens sem verdade, sem transparência. Se cada macaco estiver no seu galho, sabemos quem é que se pendura nos galhos superiores, quem é que quer ascender na árvore. Assim, evita-se que existam macacos que simulem desinteresse pelos lugares que ocupam, na exata proporção da sua pérfida ambição, espreitando uma oportunidade para, calcando no seu parceiro, elevarem-se nos galhos da árvore ou empurrarem o seu parceiro do lado, distraído com a visão confusa dos macacos amontoados sem regra.
(Da série As coisas e as palavras)

sábado, 22 de abril de 2017

Viver amigado ou sobre a amizade

Em casa dos meus pais, e devia estar prestes a entrar na escola primária, sem passar pelo jardim infantil, usava-se uma agora curiosa expressão para indicar que alguém, casado, tinha outra mulher: em vez de se dizer que “fulano tinha uma amante” dizia-se que “fulano tinha uma amiga” ou “fulano vivia amigado”. Isto, claro, valia também para o sexo oposto. A expressão não me levantava, nem levanta, problemas; sempre a achei tão natural e tão normal que só agora, muitos anos depois de ter deixado a escola primária, é que me vejo deliciosamente interpelado pela expressão. Deliciosamente interpelado porque é deliciosa a própria expressão. Numa altura em que o adultério receberia da sociedade um mais que intenso juízo de censura, via-se, no entanto, classificado com uma expressão carinhosa.
Com efeito, afinal, a amante é uma amiga[1]. Não só se presume que a esposa (enganada) não é nem uma amiga nem é a amiga, como a amiga é a outra. Podemos dizer que é uma amiga especial, malevolamente até poderíamos dizer que é uma amiga do peito. Mas, seja como for, ao afirmar-se que o marido adúltero tem uma amiga, estamos com isso a querer dizer que possui alguém onde pode encostar a cabeça ou antes a alma, alguém que possui um ombro (amigo) onde nos podemos apoiar, alguém em quem podemos confiar.
Viver amigado ou ter uma amiga era, afinal, próprio duma relação especial, algo de precioso nas relações humanas, no campo aconchegante da amizade. Tão importante e fundamental que, estamos certos, ninguém recusaria. Ou, afinal, quem é capaz de dizer que não a um bom amigo ou a uma boa amiga?
(da série As coisas e as palavras)




[1] O inverso não é verdadeiro. Não é verdade que uma amiga seja uma amante.