terça-feira, 24 de abril de 2018

O cocó do Gipsy e a ética de Kant


A ética kantiana carateriza-se pelo papel fundamental que o conceito de dever assume no
centro da sua arquitetura conceptual. Assim, uma ação valiosa do ponto de vista moral é, segundo Kant, aquela que se realiza segundo o dever e não conforme o dever. O sujeito moral age segundo o dever, realiza as coisas certas pelos motivos certos. O que se distingue daquele que age conforme o dever, isto é, poderá fazer as coisas certas mas pelas razões erradas. Por exemplo, age segundo o dever o comerciante que não engana os seus clientes porque considera que é assim que se deve agir. Age conforme o dever, por exemplo, o comerciante que não engana os seus clientes porque teme ser descoberto e, em consequência, perder a clientela. Estas ações são semelhantes do ponto de vista externo, mas diferem no princípio que cada um dos sujeitos elegeu como determinando a sua ação. Complicado?... O meu pequeno pinscher Gipsy dá-nos uma ajuda!... Outro dia, à noite, enquanto conversava com um vizinho, o Gipsy resolveu depositar um cocó junto de uma árvore. O meu vizinho aconselhou-me a não ligar, porque era um cocó insignificante e servia de fertilizante para a árvore. Era verdade, mas eu achei que devia apanhar o cocó do Gipsy. O meu vizinho tinha razão, mas eu devia fazer o que era correto. Agi segundo o dever. Mesmo que o cocó do Gipsy seja biodegradável e ridículo face ao lixo que se acumula na via pública na freguesia de Benfica, o dever impõe-se ao sujeito moral, independentemente das consequências irrelevantes das nossas ações. Por essa razão que, embora o comportamento de alguns deputados não tenha ferido nenhum dispositivo legal, poderá ser questionável do ponto de vista ético. É que tudo se passa e resolve na consciência de cada um. Mesmo que se trate de cocós insignificantes ou de viagens de deputados.

quinta-feira, 19 de abril de 2018

A palavra livro e a palavra balão


Para quem ama os livros, como eu, reconheço que a palavra Livro não é particularmente bela, à altura da realidade que refere. Não é uma palavra bem dotada.
A palavra que referisse essa realidade que temos designado por livro, para já livro, devia ter o significado intrínseco que encontramos, por exemplo, na palavra balão.
Quando eu digo balão, quando me deparo com a palavra balão, eu já estou a segurar um balão, um balão que salta, que voa, um balão cheio de ar, elástico, onde eu, ao agarrar com as mãos, afundo os meus dedos em garra. Agarro em garra o balão. Quando eu digo balão eu já estou a agarrá-lo com as mãos. A apertá-lo. Não se passa isso com o livro. E tenho muita pena. Essa fantástica realidade que contribuiu ao longo da História para estruturar as sociedades merecia uma fantástica palavra. E não é o caso.
Era uma palavra muito complicada. Tinha de ter cheiro. Tinha de ser desfolhada e em cada folha despertar surpresa, energia, vontade de saber, muita emoção… Deveria ser uma palavra muito distante da que dispomos.

domingo, 8 de abril de 2018

Um falso engenheiro

Alves dos Reis (1896-1955)
Continuando as minhas deambulações leitoras, desta vez à volta do segundo volume das Memórias de Cunha Leal, relativas aos anos que vão de 1917 a 1925, descubro através deste intrépido republicano que Alves dos Reis, não se limitou a falsificar notas de banco e inaugurou uma prática que teria os seus seguidores coevos. A situação relata-se rapidamente. Em meados de 1916, em pleno governo da União Sagrada, presidido por António José de Almeida e que também era Ministro das Colónias, este prontificou-se a nomear Alves dos Reis para diretor do Caminho de Ferro de Moçâmedes, desde que tivesse a categoria de engenheiro! O que não acontecia, mas também não era problema para Alves dos Reis. É assim que, "nessa emergência, falsificou uma carta de engenheiro emitida por acreditada escola britânica", cujos diplomados eram reconhecidos pelo nosso Ministério da Instrução. E foi desta maneira singela que Alves dos Reis, ou melhor, o engenheiro Alves dos Reis foi parar a Angola. Conta quem o conhecia, que o engenheiro "não se coibia de andar, frequentemente, em tratos diretos de lubrificação do equipamento ferroviário". Esta atitude diligente valeu-lhe, conta ainda Cunha Leal, o epíteto apropriadíssimo de engenheiro da almotolia. Há engenheiros para tudo, como tudo pode ser engenheiro.

Cunha Leal, As Minhas Memórias - vol. II, Lisboa, Ed. do autor, 1967, 475 pp.

sábado, 7 de abril de 2018

A rolha do rei da rússia


Espera a ainda donzela
À noite com o seu gargalo
Que o filho do rei da rolha
O vá com acerto alargá-lo.

E assim consumar-se o casamento
Conforme fora planeado
Na cama os dois impérios brindam
É o final com que o negócio fica fechado.

E do encontro da cortiça com o vidro
Apesar de estranhos e inesperados materiais
Espera-se que um varão sucessor
Aos negócios acrescente algo mais.

E da cabeça do novel varão
Virá nova matéria-prima
Que mesmo não se sabendo o que é
P’lo menos caberá na rima.

sexta-feira, 6 de abril de 2018

A História parece que se repete

Salazar e Gomes da Costa
Um dos meus divertimentos é a deambulação leitora. Isto é, ler ao acaso, seguindo sem orientação prévia, as sugestões que vão surgindo. Ler como se não tivesse nada para fazer. Ora, enquanto me vou dedicando ao estudo do último ano da nossa primeira República, descobri que, tal como Spínola publicara no ano anterior à revolução de abril de 1974, um livro ("Portugal e o Futuro") onde questionava as orientações do governo de Marcello Caetano em relação ao futuro dos nossos territórios ultramarinos, também o general Gomes da Costa, que iria liderar em maio de 1926 o movimento que iria pôr fim à República e dar origem ao Estado Novo de Salazar, publicou no ano anterior um livro ("A Guerra nas Colónias"), onde o autor formula críticas ao poder político na organização das forças expedicionárias. A História não se repete, mas, por vezes, até parece. E é por isso que sempre se aprende com ela. E eu me vou deliciando a deambular por estas histórias.