Aqui se acoitam mentes brilhantes, almas torturadas e um pobre professor de Filosofia
segunda-feira, 1 de outubro de 2018
De cara tapada
Retângulo desesperado
sem fronteiras para a dignidade adentro
honra perdida mares fora
pátria má amante, madrasta, putéfia,
mereces o meu ódio.
Foda-se Portugal,
fosses antes uma província do Irão
da minha ira
e andasses de cara tapada.
domingo, 2 de setembro de 2018
De marca ou genéricos?
Outro
dia foi diagnosticado ao Gaudí uma infecção urinária. De imediato, o veterinário
receitou-lhe um
antibiótico que fui levantar na farmácia. Aí, a farmacêutica
perguntou-me se eu queria um genérico ou um antibiótico de marca. Não sei se
refleti muito sobre a resposta. De facto, quase imediatamente respondi: «Dê-me
um antibiótico de marca, porque é para o meu cão! Só levava o genérico se
fosse para mim!».
![]() |
| O Gaudí e eu |
Pensei
várias vezes no que tinha feito e discuti o ocorrido com algumas pessoas que
pareciam chocadas. Entendiam que devia ser ao contrário. Não me convenceram. Não
se tratava de saber quem merecia o produto, eventualmente, melhor. Era outra
coisa, que não sabi muito bem, na altura, como justificar. Nomeadamente, havia
um argumento que me martelava na consciência: em tempos de dificuldades, uma
sociedade em que as desigualdades continuam a aumentar e a pobreza se
"mascara" de novas formas, parecia quase criminoso ou pelo menos
insultuoso que eu comprasse um antibiótico de marca para o meu cão, enquanto não
hesitaria em escolher um genérico para mim.
Ora,
talvez tenha encontrado uma possibilidade de resposta em Kant e, mais
concretamente, no filósofo australiano Peter Singer. É que a luta contra o
especismo, a perspetiva discriminatória com que tratamos os seres de outras espécies
animais como se estes existissem apenas em função dos seres humanos e para
satisfação dos interesses destes, é também um desafio à nossa inclinação moral
e, no limite, ao nosso altruísmo.
O
que damos aos animais não humanos e não a animais humanos, os nossos
semelhantes, exprime ao mais alto nível o nosso altruísmo moral. Isto é, quando
me dou ou dou ao outro, este outro não é "apenas" a outra figura de
mim, mas radicalmente o outro que não sou eu; será então nesse momento que dou
expressão ao meu amor puro e desinteressado.
E,
nesse sentido, é então que me coloco sob os auspícios da perspetiva ética mais
rigorosa. Quando escolho o melhor para o meu cão, eu estou a entregar-me da
forma mais gratuita, a que não espera nenhuma retribuição. O Gaudí não pode
dizer que faria o mesmo. E eu não espero nada dele, que ele retribua. O que está
em jogo é "apenas" o amor desinteressado pelo outro.
Podem
sorrir desta minha atitude, como a farmacêutica naquela ocasião. Só lhes posso
responder que o amor ao outro é mesmo uma coisa muito séria.
terça-feira, 28 de agosto de 2018
De passagem
Era um mundo cheio de pressa
o mundo que passava diante
da minha janela.
o mundo que passava diante
da minha janela.
Até que um dia passaste
nessa rua
atravessaste o mundo
que passava
quando passavas.
nessa rua
atravessaste o mundo
que passava
quando passavas.
A rua ficou diferente
O mundo já não era o mesmo.
E os meus olhos até aí cegos
tiveram que aprender tudo
outra vez.
O mundo já não era o mesmo.
E os meus olhos até aí cegos
tiveram que aprender tudo
outra vez.
(Lisboa, agosto, 2009-2014)
domingo, 19 de agosto de 2018
O eterno retorno do fascismo segundo Rob Riemen
Uma das
minhas leituras de verão inclui um curto e oportuníssimo ensaio de Rob Riemen,
um filósofo holandês nascido em 1961: O
Eterno Retorno do Fascismo[1].
Riemen começa por enquadrar propedeuticamente a reflexão sobre este retorno
reiterado do fascismo. Em primeiro lugar, a questão terminológica: a palavra
«fascismo» é tabu na Europa e usam-se várias denominações para clarificar movimentos
da direita e extrema-direita (conservadorismo radical, populismo de direita),
mas nunca usa o termo «fascismo». Ora, alerta Riemen, se queremos combater
eficazmente o fascismo, teremos de o chamar pelo seu nome, não deveremos temer
o uso da palavra adequada: «fascismo»[2].
Por outro lado, há que ter em conta que o fascismo corresponde à politização de
uma mentalidade que se começara a desenvolver no cenário europeu. É assim que
regressa a alguns autores que logo no início do século XIX vão dando conta
dessa atmosfera: Goethe, Tocqueville, Nietzsche e, mais tarde, Ortega Y Gasset.
O que nos relatam esses autores é sublinhado por Riemen? Fundamentalmente, a
perda dos valores espirituais que acarreta não só o desaparecimento da moral,
como da cultura.
A Europa que, no século XX, estava no limiar duma sociedade
livre, onde se respeitava a liberdade individual, se assumia a responsabilidade
pessoal e se cultivavam os valores espirituais que apoiavam o ideal de
civilização, acaba, segundo Ortega Y Gasset, por rejeitar esta oportunidade
histórica em nome dum novo tipo de indivíduo: o homem da multidão, o
homem-massa (pp. 21-22). A ascensão deste tipo de homem representa uma ameaça
direta aos valores e ideais da democracia liberal e do humanismo europeu,
"tradições em que o desenvolvimento espiritual e moral do indivíduo livre
garante os fundamentos de uma sociedade livre e aberta" (p. 22). Ora, o caráter
niilista desta sociedade de massas é reforçado por outros fatores, como, por
exemplo, os mass media que "são a melhor escola para os demagogos, como
estes retiram o seu poder do facto de o povo, à força de se alimentar de uma
linguagem que mais não faz do que simplificar, não compreender mais nada, nem
querer ler ou ouvir coisas diferentes" (p. 25). Acaba, deste modo, por se
desenvolver uma sociedade obcecada por trivialidades, cultivando a banalidade e
a tagarelice, atolada em ressentimento e medo, onde a política acaba por se
tornar assunto de demagogos. Por outro lado, explora-se uma cultura do
ressentimento que elege um bode expiatório que acusa de causa de todos os males:
o judeu. Daí concluir Riemen que os
disfuncionamentos sociais e a crise económica não bastarem para explicar a
ascensão do fascismo; é que "o fascismo está demasiado enraizado no culto
do ressentimento e no vazio espiritual" (p. 35). A par desse clima
espiritual, Riemen acusa também a arrogância e a cobardia das elites sociais em Itália e na Alemanha. Por exemplo,
os liberais deixaram de defender o ideal da liberdade e do humanismo europeu,
para se interessarem apenas pela liberdade dos mercados; os conservadores, por
sua vez, estavam preparados para trocar, sem escrúpulos, os valores espirituais
pela preservação do seu próprio poder.
Esta
enraizamento do fascismo num determinado ambiente espiritual que o favorece,
leva-nos a concluir que o fascismo não desapareceu com o fim da guerra. A crise
moral, a estupidez organizada,o embrutecimento, a trivialidade, tudo isto
contribui para um clima propício ao regresso do fascismo.
Esta
colocação do fascismo no âmbito da crise dos valores e da cultura leva-nos a
ter que reconhecer a importância duma educação humanista que cultive nos
indivíduos, desde muito cedo, os sentimentos de justiça e igualdade, os ideais
da beleza e da harmonia, o compromisso com a responsabilidade e a solidariedade
para com o nosso semelhante. Nesse sentido, o papel da filosofia na educação
dos jovens poderá sair reforçado, na medida em que contribui para o
desenvolvimento duma atitude cidadã e crítica, apoiada em valores espirituais
que constituem, afinal, o nosso próprio património civilizacional.
sábado, 18 de agosto de 2018
Quando o sol
Temos que
ir.
Como se o
mundo acabasse
Numa tarde
de facas e
Sol que
nunca mais finda
A pino.
Oiço as
paredes
A cal branca
das paredes
e a memória
das cigarras em guerra.
A água
corre?
Rumorosos
regatos recordam-me
Tardes. É
assim que cresço
Entre essa
lembrança e a dor
De dias. A
casa abate-se sobre mim
E sobre o
meu desejo cresce um corpo
Que ainda
não sei até onde vai.
Se consigo
escrever é porque desfaleço
Nas palavras
que não consigo dizer.
Odeio as
letras que me faltam, porque
Há um
excesso. Nas borbulhas do corpo, nas
Minhas mãos.
Em tudo o que dói e sangra e
Se recorta
da brancura dos lençóis.
Amo e no
entanto percorro os dias
Infeliz.
Deliciosa tortura esta
Feita de
tesouras, musgo e pele.
O teu cheiro
eterno persegue-me
Como se
fosse uma sentença, uma prisão
Para sempre.
Vá para onde for, persegue-me o teu cheiro
E as tuas
mãos, e o teu olhar de mar
E outras
coisas que eu sei que aparecerão sempre
Por mais que
fuja e me afaste.
És assim a
mais terrível emboscada.
Terrível,
até quando te ris.
E é pela tua
calma indizível
Que vai
caindo a tarde e
o Sol
esmorece
Cansado.
terça-feira, 14 de agosto de 2018
Quando os teus olhos fecham é noite
De ti para mim o vento corre
Com os inacessíveis segredos
E as histórias onde percorre
O teu corpo os meus dedos.
Os ventos é que acedem
Por entre corredores à fortaleza do bem-amado
É a eles que os lábios pedem
A memória de cada centímetro esquadrinhado.
Estranho e máximo conhecimento
Em cada pêlo a sua marca
Aí se guarda em cada um a sua Babel
Cuja torre toda a história abarca.
Pelos teus olhos passa agora um laranjal
Reclamado ávido p’la m’nha sede
Pois seus frutos e carne me refrescam
As lembranças feitas duma rede
Para os peixes que no vento pescam
E adormecem quando luzes soam
No pintado céu de papel
Peixes que no vento voam
Enganados p’lo mar da tua pele.
(Sesimbra, 2009)
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