sábado, 20 de outubro de 2018

segunda-feira, 1 de outubro de 2018

De cara tapada

Retângulo desesperado
sem fronteiras para a dignidade adentro
honra perdida mares fora
pátria má amante, madrasta, putéfia,
mereces o meu ódio.

Foda-se Portugal,
fosses antes uma província do Irão
da minha ira
e andasses de cara tapada.

domingo, 2 de setembro de 2018

De marca ou genéricos?


Outro dia foi diagnosticado ao Gaudí uma infecção urinária. De imediato, o veterinário receitou-lhe um
O Gaudí e eu
antibiótico que fui levantar na farmácia. Aí, a farmacêutica perguntou-me se eu queria um genérico ou um antibiótico de marca. Não sei se refleti muito sobre a resposta. De facto, quase imediatamente respondi: «Dê-me um antibiótico de marca, porque é para o meu cão! Só levava o genérico se fosse para mim!».
Pensei várias vezes no que tinha feito e discuti o ocorrido com algumas pessoas que pareciam chocadas. Entendiam que devia ser ao contrário. Não me convenceram. Não se tratava de saber quem merecia o produto, eventualmente, melhor. Era outra coisa, que não sabi muito bem, na altura, como justificar. Nomeadamente, havia um argumento que me martelava na consciência: em tempos de dificuldades, uma sociedade em que as desigualdades continuam a aumentar e a pobreza se "mascara" de novas formas, parecia quase criminoso ou pelo menos insultuoso que eu comprasse um antibiótico de marca para o meu cão, enquanto não hesitaria em escolher um genérico para mim.
Ora, talvez tenha encontrado uma possibilidade de resposta em Kant e, mais concretamente, no filósofo australiano Peter Singer. É que a luta contra o especismo, a perspetiva discriminatória com que tratamos os seres de outras espécies animais como se estes existissem apenas em função dos seres humanos e para satisfação dos interesses destes, é também um desafio à nossa inclinação moral e, no limite, ao nosso altruísmo.
O que damos aos animais não humanos e não a animais humanos, os nossos semelhantes, exprime ao mais alto nível o nosso altruísmo moral. Isto é, quando me dou ou dou ao outro, este outro não é "apenas" a outra figura de mim, mas radicalmente o outro que não sou eu; será então nesse momento que dou expressão ao meu amor puro e desinteressado.
E, nesse sentido, é então que me coloco sob os auspícios da perspetiva ética mais rigorosa. Quando escolho o melhor para o meu cão, eu estou a entregar-me da forma mais gratuita, a que não espera nenhuma retribuição. O Gaudí não pode dizer que faria o mesmo. E eu não espero nada dele, que ele retribua. O que está em jogo é "apenas" o amor desinteressado pelo outro.
Podem sorrir desta minha atitude, como a farmacêutica naquela ocasião. Só lhes posso responder que o amor ao outro é mesmo uma coisa muito séria.

terça-feira, 28 de agosto de 2018

De passagem

Diante da minha janela passa uma rua
o fim da rua que era
também o fim do mundo.
Era um mundo cheio de pressa
o mundo que passava diante
da minha janela.
Até que um dia passaste
nessa rua
atravessaste o mundo
que passava
quando passavas.
A rua ficou diferente
O mundo já não era o mesmo.
E os meus olhos até aí cegos
tiveram que aprender tudo
outra vez.
(Lisboa, agosto, 2009-2014)

domingo, 19 de agosto de 2018

O eterno retorno do fascismo segundo Rob Riemen


                Uma das minhas leituras de verão inclui um curto e oportuníssimo ensaio de Rob Riemen, um filósofo holandês nascido em 1961: O Eterno Retorno do Fascismo[1]. Riemen começa por enquadrar propedeuticamente a reflexão sobre este retorno reiterado do fascismo. Em primeiro lugar, a questão terminológica: a palavra «fascismo» é tabu na Europa e usam-se várias denominações para clarificar movimentos da direita e extrema-direita (conservadorismo radical, populismo de direita), mas nunca usa o termo «fascismo». Ora, alerta Riemen, se queremos combater eficazmente o fascismo, teremos de o chamar pelo seu nome, não deveremos temer o uso da palavra adequada: «fascismo»[2]. Por outro lado, há que ter em conta que o fascismo corresponde à politização de uma mentalidade que se começara a desenvolver no cenário europeu. É assim que regressa a alguns autores que logo no início do século XIX vão dando conta dessa atmosfera: Goethe, Tocqueville, Nietzsche e, mais tarde, Ortega Y Gasset. O que nos relatam esses autores é sublinhado por Riemen? Fundamentalmente, a perda dos valores espirituais que acarreta não só o desaparecimento da moral, como da cultura.
A Europa que, no século XX, estava no limiar duma sociedade livre, onde se respeitava a liberdade individual, se assumia a responsabilidade pessoal e se cultivavam os valores espirituais que apoiavam o ideal de civilização, acaba, segundo Ortega Y Gasset, por rejeitar esta oportunidade histórica em nome dum novo tipo de indivíduo: o homem da multidão, o homem-massa (pp. 21-22). A ascensão deste tipo de homem representa uma ameaça direta aos valores e ideais da democracia liberal e do humanismo europeu, "tradições em que o desenvolvimento espiritual e moral do indivíduo livre garante os fundamentos de uma sociedade livre e aberta" (p. 22). Ora, o caráter niilista desta sociedade de massas é reforçado por outros fatores, como, por exemplo, os mass media que "são a melhor escola para os demagogos, como estes retiram o seu poder do facto de o povo, à força de se alimentar de uma linguagem que mais não faz do que simplificar, não compreender mais nada, nem querer ler ou ouvir coisas diferentes" (p. 25). Acaba, deste modo, por se desenvolver uma sociedade obcecada por trivialidades, cultivando a banalidade e a tagarelice, atolada em ressentimento e medo, onde a política acaba por se tornar assunto de demagogos. Por outro lado, explora-se uma cultura do ressentimento que elege um bode expiatório que acusa de causa de todos os males: o judeu. Daí  concluir Riemen que os disfuncionamentos sociais e a crise económica não bastarem para explicar a ascensão do fascismo; é que "o fascismo está demasiado enraizado no culto do ressentimento e no vazio espiritual" (p. 35). A par desse clima espiritual, Riemen acusa também a arrogância e a cobardia das elites  sociais em Itália e na Alemanha. Por exemplo, os liberais deixaram de defender o ideal da liberdade e do humanismo europeu, para se interessarem apenas pela liberdade dos mercados; os conservadores, por sua vez, estavam preparados para trocar, sem escrúpulos, os valores espirituais pela preservação do seu próprio poder.
                Esta enraizamento do fascismo num determinado ambiente espiritual que o favorece, leva-nos a concluir que o fascismo não desapareceu com o fim da guerra. A crise moral, a estupidez organizada,o embrutecimento, a trivialidade, tudo isto contribui para um clima propício ao regresso do fascismo.
                Esta colocação do fascismo no âmbito da crise dos valores e da cultura leva-nos a ter que reconhecer a importância duma educação humanista que cultive nos indivíduos, desde muito cedo, os sentimentos de justiça e igualdade, os ideais da beleza e da harmonia, o compromisso com a responsabilidade e a solidariedade para com o nosso semelhante. Nesse sentido, o papel da filosofia na educação dos jovens poderá sair reforçado, na medida em que contribui para o desenvolvimento duma atitude cidadã e crítica, apoiada em valores espirituais que constituem, afinal, o nosso próprio património civilizacional.


[1] Rob Riemen, O Eterno Retorno do Fascismo, Lisboa, Editorial Bizâncio, 2017 (2ª ed.), 78 pp.
[2] Ver entrevista a Rob Riemen aqui.


sábado, 18 de agosto de 2018

Quando o sol


Temos que ir.
Como se o mundo acabasse
Numa tarde de facas e
Sol que nunca mais finda
A pino.

Oiço as paredes
A cal branca das paredes
e a memória das cigarras em guerra.

A água corre?
Rumorosos regatos recordam-me
Tardes. É assim que cresço
Entre essa lembrança e a dor
De dias. A casa abate-se sobre mim
E sobre o meu desejo cresce um corpo
Que ainda não sei até onde vai.

Se consigo escrever é porque desfaleço
Nas palavras que não consigo dizer.
Odeio as letras que me faltam, porque
Há um excesso. Nas borbulhas do corpo, nas
Minhas mãos. Em tudo o que dói e sangra e
Se recorta da brancura dos lençóis.
Amo e no entanto percorro os dias
Infeliz. Deliciosa tortura esta
Feita de tesouras, musgo e pele.

O teu cheiro eterno persegue-me
Como se fosse uma sentença, uma prisão
Para sempre. Vá para onde for, persegue-me o teu cheiro
E as tuas mãos, e o teu olhar de mar
E outras coisas que eu sei que aparecerão sempre
Por mais que fuja e me afaste.

És assim a mais terrível emboscada.
Terrível, até quando te ris.

E é pela tua calma indizível
Que vai caindo a tarde e
o Sol esmorece
Cansado.

terça-feira, 14 de agosto de 2018

Quando os teus olhos fecham é noite


De ti para mim o vento corre

Com os inacessíveis segredos
E as histórias onde percorre
O teu corpo os meus dedos.

Os ventos é que acedem
Por entre corredores à fortaleza do bem-amado
É a eles que os lábios pedem
A memória de cada centímetro esquadrinhado.

Estranho e máximo conhecimento
Em cada pêlo a sua marca
Aí se guarda em cada um a sua Babel
Cuja torre toda a história abarca.

Pelos teus olhos passa agora um laranjal
Reclamado ávido p’la m’nha sede
Pois seus frutos e carne me refrescam
As lembranças feitas duma rede
Para os peixes que no vento pescam

E adormecem quando luzes soam
No pintado céu de papel
Peixes que no vento voam
Enganados p’lo mar da tua pele.


(Sesimbra, 2009)