Sempre gostei de animais, desde muito pequeno. Como, aliás, a maioria das
crianças. Desde que me conheço que eu quis ter um cão ou um gato. Porém, os
meus pais, com a justificação de que a casa era pequena, sempre me recusaram a concretização desse desejo. Talvez estivessem a ser sinceros com esse motivo, pois na altura
acabaram por aceitar que eu criasse bichos-da-seda no meu próprio quarto de
dormir. Durante aproximadamente um ano, numa caixa de camisas, tive uma criação
dessas lagartinhas que se alimentavam com folhas de amoreira que eu apanhava
várias vezes por semana. Num largo perto da minha casa existiam essas árvores e
como havia uma verdadeira epidemia na altura à volta da criação dos
bichos-da-seda, eu tinha um grupo de miúdos que comigo subiam a essas árvores. Eu
não podia deixar esgotar o stock das folhas, pois temia que se isso
acontecesse, as lagartas começassem a roer as paredes de cartão do seu pequeno
mundo. As lagartinhas, às riscas, devoravam rapidamente as folhas das
amoreiras, movendo-se de uma forma muito curiosa. Passadas algumas semanas as
lagartas com um fio que segregavam, teciam à sua volta uns pequenos casulos
onde se escondiam e acabavam por desaparecer definitivamente. Então, deixavam de
ter piada.
Por isso, ao fim de algum tempo, desinteressei-me dos bichos-da-seda. A
minha tia Conceição ofereceu-me, algum tempo depois, um porquinho-da-índia. Era
maior que um rato, mas mais pequeno que um gato. Chamava-lhe Tito e divertia-me
bastante com ele. Andava com ele ao colo para todo o lado, escondido debaixo do
casaco, muitas vezes solicitado por todos aqueles que de mim se aproximavam e
que, sem medo dos seus olhinhos achinesados, muito vivos, não resistiam à
tentação de lhe fazer umas festas. O que me deixava muito orgulhoso. Eu era
visto como um menino diferente e especial. Mais ninguém, na rua, tinha um porquinho-da-índia.
Além disso, o facto de ser da Índia, dum lugar tão distante, dava-lhe um ar
exótico, o que despertava nos outros ainda mais curiosidade sobre o meu
bichinho e a razão de ser da minha predileção por porquinhos-da-índia.
Conseguir relacionar-me com um ser vivo oriundo dum ponto do globo tão
distante, pertencendo a uma cultura tão diferente da ocidental, também me
emprestava qualidades especiais. Não sei se na altura não haveria quem pensasse
que eu vinha dessas paragens longínquas. Só que a minha pele excessivamente
branca colocava-me no sítio certo.
Não tive mais animais. Contudo, sempre que me aproximava dum cão, não
perdia a oportunidade para lhe fazer uma festa e pedir uma lambidela. Ou em
casa de amigos que tivessem gatos, tentava que eles saltassem para o meu colo,
se aninhassem e ambos ronronássemos de prazer.
Já adulto continuei a ser um amigo dos animais. Do ponto de vista cívico,
considero-me um empenhado militante a favor dos direitos dos animais. Sou
contra as touradas e assino todos os manifestos e abaixo-assinados que surjam
nesse sentido. Também já me manifestei em várias ocasiões contra a utilização
de animais em experiências laboratoriais. Até o simples transporte dos animais
em condições indignas gera a minha revolta. Em suma, ao nível da intervenção
cultural e política, considero-me um amigo dos animais. De todos os animais,
sejam mamíferos ou aves, os que rastejam ou os que voam, que respiram por
pulmões ou por guelras, grandes ou pequenos.
Todos os animais têm direitos e os seus direitos devem ser respeitados. É
essa a minha filosofia. Pode haver, contudo, situações cuja complexidade nos
conduza a enfrentar direitos que entrem em conflito entre si e cuja nossa
decisão e intervenção fiquem paralisados. Situações em que não saibamos o que
fazer.
Outro dia, andava a passear por um pequeno jardim, perto da minha casa.
Tinha chovido todo o dia e aproveitava naquele momento uma breve aberta. Vinha
a calhar bem, pois já estava farto de estar em casa, sem poder sair.
Da terra e da relva molhadas soltava-se um aroma adocicado, sobre o qual toda a gente já escreveu, pelo que fico por aqui. Caminhava
devagar para poder aspirar mais intensamente esse cheiro tão agradável. Além
disso, observava melhor a natureza renascida. Subitamente, reparei que um
caracol tentava atravessar o carreiro por onde caminhava. Conclui rapidamente
que aquele caracol corria perigo. Alguém mais distraído que andasse por ali a
passear poderia facilmente esmagar o pobre caracol. Por isso, baixei-me e
peguei no caracol. Depois coloquei-o cuidadosamente num canteiro, junto de umas
folhas caídas. Era um sítio ainda molhado, liso, adequado às movimentações do
caracol. Só esperava que ele não voltasse ao nosso caminho. Era muito perigoso.
Era como atravessar uma estrada muito movimentada fora da passadeira, mas
fazê-lo muito devagar, demorando mais de três horas para chegar ao outro lado.
Tratando-se de um animal tão pequeno era muito fácil alguém, sem intenção, pisá-lo.
Todos conhecem a cantilena infantil “Caracol,
caracol // Põe os corninhos ao sol”. Parece que o caracol gosta imenso do
Sol, mas não é assim. O caracol gosta da humidade, do tempo húmido, da chuva
intensa, sobretudo. Quando pára de chover, o caracol aproveita imediatamente
essa situação para se deslocar. Depois de chover é que o caracol sai para fora
da sua casinha e arrasta-a. Porém, só com o piso molhado é que é possível esta tarefa;
com o piso molhado, o caracol faz-se deslizar mais facilmente, a si mais a sua casinha. É por isso que, depois duma chuvada, todos os caracóis como que
despertam e movimentam-se.
Foi por essa razão que, uns passos mais adiante, voltei a encontrar outro
caracol e na mesma situação. Voltei a pegar nele e depositei-o na relva. Coloquei-o
de costas para o caminho de terra, na esperança de que ele, deslocando-se para
a frente, se afastasse do perigo. Só que quando me agachei, reparei em mais
outro caracol. Desta vez, esperava ter salvo dois caracóis.
Dois metros mais à frente encontrei quatro caracóis. Repeti a operação de
salvamento. Não podia deixar de me sentir muito contente com isso. Imaginei
que, se os caracóis falassem e eu os pudesse ouvir, me agradeceriam e iriam
prometer que não voltariam a atravessar o carreiro dos peões, isto é, dos
humanos. Muitas vezes imaginava-me a conversar com formigas, grilos, polvos,
caranguejos e caracóis. Se conseguíssemos comunicar, imaginava os mais variados
diálogos a propósito dos mais variados assuntos. E interrogava-me sobre o modo
como eles nos viam e nos julgavam. Gostava de saber o que estes caracóis
comentariam entre eles sobre o que tinha acabado de acontecer e a minha
iniciativa. Por outro lado, seria incapaz de ver os pobres caracóis
desconhecendo os perigos por que estavam a passar e não ligar.
O chão que piava no jardim era de terra e, depois de horas a chover, estava
enlameado em muitos sítios. Talvez isso explicasse porque é que havia tantos
caracóis a atravessarem-se no meu caminho! Com efeito, dei mais uns passos e
voltei a encontrar mais cinco caracóis que voltei a salvar duma potencial morte
horrível. Esta situação voltou a acontecer mais uma série de vezes. Fiz as
contas aos caracóis que já tinha salvo: esse número ultrapassava uma centena!
Da última vez tinha pegado em oito caracóis, alguns já prestes a alcançar o
retângulo de relva do outro canteiro. Felizmente que a chuva tinha afastado as
pessoas da rua e, claro, do jardim. Confirmei que não havia ninguém no jardim,
o que explicava que não existissem caracóis esmagados por alguém distraído. De
qualquer modo, se viesse alguém até ao jardim tinha a certeza que os caracóis
que tinha retirado do caminho estavam a salvo. Essa perspetiva dava-me alento
para continuar.
Mais uns metros adiante e deparei com doze caracóis. Era o maior número de
caracóis que encontrara de uma só vez, no mesmo sítio. Julguei que se poderia
tratar de uma família única, completa, a viajar, a mudar de cidade ou a
encaminharem-se para uma estância de férias. Uma família extensa: avó e avô,
pais e filhos, um tio solteiro, um primo afastado com a sua esposa e dois
filhos malcriados, uma tia viúva e a sua fiel empregada. Salvar uma família era
mais do que salvar aquela quantidade, já significativa de caracóis. Se no mundo
dos caracóis daquele jardim instituíssem um prémio a ser entregue àqueles que
se dedicam à causa dos animais era bem provável que viessem ter comigo. Ao pôr
a salvo uma família eu estava, lentamente, a entrar no mundo real e organizado
dos caracóis, aqueles bichinhos simpáticos que transportam a casa às costas e
que, por causa disso, motivam tantos escritos. No mundo dos caracóis eu seria
já um amigo especial. Confortado com esta ideia, continuei a procurar no jardim
por caracóis distraídos, que se tivessem posto à estrada, sem conseguirem atravessar
e abrigarem-se convenientemente nos canteiros mais distantes dos corredores de
passagem dos humanos. Avancei mais uns metros e voltei a encontrar mais um
pequeno grupo de caracóis. Novamente, voltei a colocá-los a salvo. Entretanto,
tinha acabado de reparar que já percorrera todos os caminhos do jardim. A
missão estava, assim, concluída. Sentia-me, por isso, feliz. Salvara perto de
duas centenas de caracóis!
Nos dias seguintes continuei a pensar nos caracóis que salvara. Alguns
deles deviam já ter observado o que acontecia aos caracóis que eram esmagados
ou simplesmente pisados. A destruição da sua casca quando não era também a do
seu corpo mole e húmido deveria testemunhar um fim agonizante e terrível,
quanto era frágil o seu corpinho. Os caracóis que eu salvara só podiam estar
agradecidos. Gostava de saber se, entre eles, falariam de mim, referindo-se a
uma boa pessoa que passeava no jardim ou a um herói que não procurava a glória,
mas apenas fazer o bem, duma forma anónima. Isso tinha todo o sentido. Quem
procurasse a glória e o reconhecimento público salvando animais, procurava
animais de grande porte, animais em vias de extinção, seres que eram objeto de
campanhas internacionais e sobre os quais os meios de comunicação estavam
permanentemente atentos. Eu não tinha dúvidas que salvara muitos caracóis, mas
não estava a ver nenhuma televisão a procurar-me para uma entrevista onde
relataria o que tinha feito. No entanto, se salvasse um cão de morrer afogado
ou ajudasse um golfinho, encalhado na areia da praia, a encontrar o caminho de
casa, corria um risco de ver a minha vida devassada por algum jornalista que
não descansaria enquanto eu não lhe concedesse uma entrevista. Ao salvar um
caracol eu não me arriscava a ganhar uma medalha ou a ser recebido pelo presidente
da República. Mas a vida dum caracol valia menos que a duma baleia? Ou que a
vida dum gato? E a vida de 187 caracóis era menos preciosa que a vida dum gato?
E se fizéssemos essa pergunta ao caracol?
Eu não me lembrava de alguma vez na minha vida ter praticado algum ato
de heroísmo. Bem, uma vez, tinha onze ou doze anos, passara uma tarde a apanhar
maçãs no quintal da vizinha da minha tia Conceição. A vizinha era uma idosa
adoentada, que não saía à rua e nunca conseguiria apanhar as maçãs da suas
árvores. Elas acabariam por se estragar, pois até já havia algumas com bicho e
muitas caídas no chão a apodrecer. Utilizei um escadote e tive que trepar na
árvore para alcançar as maçãs que estavam nos ramos mais distantes. À medida
que subia na árvore, os ramos eram mais frágeis e cheguei a temer que se
pudessem partir com o meu peso. No fim, consegui apanhar todas as maçãs que
entreguei à amiga da minha tia. Ela ficou comovida com o meu gesto e confessou
até à minha tia que era muito bem capaz de me fazer seu herdeiro. Mas isso só
soube depois da senhora morrer e o sobrinho, um advogado que eu nunca vira,
rapar tudo o que lá havia em casa, deixando-me apenas um alguidar de plástico e
um pano para que eu conseguisse arrancar o papel de parede velho, pois o
senhorio não ía gostar. Também soube mais tarde que não havia nenhum senhorio e
a casa tinha passado para o sobrinho que tratou de a vender rapidamente. Mas,
naquela altura, a amiga da minha tia recebeu os dois sacos de maçãs com um
sorriso de satisfação que valeria por si só. Passados três ou quatro dias, a
minha tia Conceição telefonou-me irritada, porque eu andara a apanhar as maçãs.
− Mas a macieira não é da sua vizinha? − perguntei.
− Não! – rosnou a tia Conceição.
− Ah…. - desliguei, com o telefone entre as pernas.
Como a vizinha fizera várias tartes de maçã, o cheiro a bolos acabara por
despertar a ira do dono da macieira, que vivia no apartamento ao lado e via nas
tartes de maçã, feitas com as suas maçãs, a suprema arte do abuso e da insolência.
De qualquer modo, o propósito é que conta e eu fizera tudo aquilo com a
melhor das intenções.
Mas deixemos as maçãs entregues ao seu dono e regressemos aos caracóis. Eu sabia que quando voltasse a chover, muitos daqueles caracóis que
salvara, voltariam, inadvertidamente, a atravessar por sítios onde correriam
perigo. Eu achava que esses caracóis não procuravam intencionalmente colocar a
sua vida em perigo; muitos deles pretendiam apenas melhores sítios para viver, o
que era perfeitamente justificável. Não era o que se passava no mundo dos
homens? Eu tinha era que estar atento à meteorologia. Os caracóis deviam contar
comigo.
Eu andava a auscultar o tempo antes de adormecer. Perscrutava todos os
sinais. A lua ía-se escondendo por detrás de sucessivas nuvens que ameaçavam
chuva. Ainda pensei em não adormecer naquela noite, mas acabei vencido pelo
cansaço.
Quando acordei, o céu estava a começar a clarear. Porém, apercebi-me que
tinha chovido como eu temera. Vesti-me rapidamente e dirigi-me para o jardim.
Como previ não andava ninguém no jardim àquela hora. Com alguma ansiedade fui
olhando para o chão. Até que comecei a ver os primeiros caracóis atravessando o
meu caminho. Mudando de canteiro. Fui pegando neles e colocando-os a salvo.
Como sempre, esperava que não voltassem a tentar atravessar o caminho de terra
por onde todos passávamos. Mas era bem possível que estivessem ali alguns que
já o tinham tentado da outra vez. Como no mundo dos seres humanos, havia sempre
alguém mais reticente, incapaz de contrariar os seus desejos e projetos, com
dificuldade em aprender as lições da vida. Mesmo quando se tratava, como era o
caso, de lições fatais. A teimosia é algo de genético.
Foi então que, pela primeira vez, fui assaltado por algumas dúvidas sobre
quando é que me poderia libertar daquela missão. Vinha aí o inverno e tudo levava a crer que
aqueles caracóis não iriam aprender a lição tão depressa. Além disso, na
véspera, tinha passado por uma praceta com um pequeno canteiro central e ficara
a matutar na situação dos caracóis que lá residiriam e agendara mentalmente
umas passagem por lá. Ora, parecia que não iria ter tempo por agora, o que me
deixava angustiado só de pensar nas pequenas vidas eu se iriam perder.
Eu não sabia quantos animais, mesmo minúsculos, poderia ainda salvar. De
qualquer modo, quando olhava para um caracol, separado dos seus irmãos,
atravessando sozinho à procura de um local melhor para viver, não podia deixar
de me sentir tocado pela sua capacidade de iniciativa, pelo seu
empreendedorismo, inconsciente dos perigos que corria. O mesmo se passava com
pequenos grupos de caracóis. Muito possivelmente tratava-se de pequenos núcleos
familiares que, como autênticos pioneiros ou grupos de emigrantes italianos,
procuravam uma vida melhor. Essa odisseia, do mesmo modo, despertava em mim os mais puros
instintos de solidariedade. Também esses grupos de protagonistas corajosos
alimentavam os meus sentimentos altruístas mais profundos. Eu podia ter dúvidas
sobre como continuaria a agir no futuro, talvez criasse um grupo de
voluntários, que salvassem caracóis em todos os jardins da cidade, mas estes
caracóis atuando sozinhos ou em pequenos grupos não podiam ser abandonados.
Disso tinha a certeza.
Porém, acabei por deparar com um autêntico exército de caracóis
movimentando-se já no limite do jardim, em direção ao passeio, e muito
provavelmente, preparando-se para se deslocar na estrada de alcatrão. Tinha
chovido bastante, a estrada estava ainda muito molhada, refletindo a luz dos
candeeiros de iluminação. Havia ainda várias poças de água na estrada. O dia começava
a clarear, mas ainda era muito cedo, de tal modo que não havia quaisquer carros
a passarem na estrada. Talvez aqueles caracóis contassem com isso. Eram mais de
quinhentos caracóis, isto numa contagem à
vol d’oiseau. E parecia que, a todo o momento, esta autêntica coluna de
bichos ía crescendo.
Um grupo de caracóis tão numeroso pressupunha alguma organização e, de
certeza, liderança. Aquela movimentação extraordinária, como eu nunca vira,
como um disciplinado exército de vários batalhões de infantaria, deslocando-se
de forma tão ordenada e harmoniosa, desenhando sucessivas formas geométricas
perfeitas, tinha de ter por detrás dele um planeamento rigoroso.
Perante aquele espetáculo, eu já não me podia ver como um salvador de
caracóis. Aliás, estes caracóis não apareciam como seres perdidos,
desorientados, imitando os humanos à procura de melhores condições de vida,
representado nessa cena comovente o drama da condição humana. Não, estes
caracóis todos assumiam uma proporção, digamos, industrial, massificadora. Já
não tinha diante de mim, o drama individual dum pequeno caracol perdido,
desorientado, pelo qual sentia uma íntima identificação e gerava em mim uma
natural solidariedade. O que tinha agora aos meus pés, sem saber muito bem onde
pôr os pés, era a própria sociedade de massas, na versão caracol. Todos aqueles
bichos anónimos não despertavam em mim a mínima comoção. Apenas uma certa perplexidade a raiar de perto a indignação.
Posso dizer, afinal, que ainda bem. Eu não os podia contar. Já deviam ser
mais de um milhar! Podia agora medi-los em quilos! E eram uns poucos quilos.
Esta medida era já reflexo daquele mundo anónimo e frio que se movimentava aos
meus pés. Estava tão longe das minhas motivações iniciais. Subitamente, senti a
vontade de os agarrar com as mãos abertas, como se estas fossem umas pás. De facto,
eu já não os iria salvar. Os caracóis, no seu atual movimento de massas, tinham
perdido a sua individualidade, a sua história dramática.
Lembrei-me, nesse momento, que aquela
quantidade toda de caracóis, poderia proporcionar um excelente guisado. Foi
então que vi aqueles caracóis a caminharem triunfalmente para o tacho, de
encontro ao azeite, aos alhos, à cebola cortada aos quartos, mais a folhinha de
louro e os orégãos; e, depois, os caracóis a adormecerem nessa cama quente de
cheiros e sabores, numa fervura suave e longa. Sim, aqueles caracóis
resultariam num excelente pitéu e eu tinha a certeza que me iria regalar com
eles. E, afinal, que melhor e tão abençoado fim poderiam aqueles bicharocos ambicionar?
Era a verdadeira consagração da sua (e da minha) existência!
José Carlos S. de Almeida
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