quarta-feira, 21 de março de 2018

Terra absoluta sob céu imóvel


A terra é que segura

O céu absoluto
De nuvens, imóvel.

Uma terra escanhoada
De pilares invisíveis
E que as cigarras procuram
Na ilusão duma sombra.

Uma terra de terra
Esboroada pelo tempo
E pelos homens
Que caminham
Sem direcção.

sábado, 3 de março de 2018

O remorso do homem branco ou o sentimento de culpa dum adolescente desiludido


Pascal Bruckner é um filósofo e ensaísta francês, nascido em 1948 e geralmente associado ao neoconservadorismo europeu[1]. Contudo, o seu percurso, como muitos intelectuais franceses que estiveram ligados ao grupo dos «nouveaux philosophes» de que fazia parte André Glucksman e Bernard Henri-Lévy, também teve o seu passado esquerdista, concretamente ligado ao maoísmo e que, tal como os seus compagnons de route, desenvolveu uma crítica feroz (ou ressentida) ao marxismo, como que para expurgar os demónios da adolescência. Percurso que também encontramos entre muitos políticos e intelectuais portugueses.
De Bruckner, autor de vasta obra, muitas vezes dedicada a uma reflexão sobre as relações amorosas na contemporaneidade e outros temas do viver quotidiana, surgiu em 1983, Le Sanglot de l'Homme Blanc, e que foi editado entre nós com o título O Remorso do Homem Branco[2].
Basicamente, Pascal Bruckner tenta denunciar a má consciência e remorso dos europeus que procede a um ajuste de contas com o passado colonial do continente europeu.
Demonstra que há uma evolução política que anima uma certa intelligentsia de esquerda e que vai do anti-colonialismo do pós-guerra para o terceiro mundismo dos anos 60. Aqueles setores da esquerda estão, assim, desiludidos com a ausência de perspetivas políticas na Europa, mas ganham um certo ânimo com o ódio de si, alicerçado na ideia de que o homem branco é mau, o que vai provocar um desejo de arrependimento e penitência, abrindo um caminho de expiação militante, apesar de coabitar com a indiferença da maioria da população face aos países subdesenvolvidos.
Os terceiro-mundistas seriam animados por uma "confusa certeza": a da infâmia do Ocidente[3].
É assim que muitos progressistas europeus estariam dispostos a auto-punir-se e auto-imolar-se para "resgatarem as obrigações contraídas pelos seus pais"[4].
Ao mesmo tempo, esta auto-flagelação do homem europeu elege os EUA como bode expiatório, um alvo ideal por se tratar ainda dum parente próximo. A América seria a "filha desnaturada", enquanto a península europeia, para se libertar da sua má consciência que lhe advinha do seu passado colonial, se tornava num "novo departamento do Terceiro Mundo"[5]!
Ora, esta pretensa denúncia das propostas multiculturalistas acaba por ser a sua encapotada confissão dos seus amores pela economia capitalista e pela cultura burguesa e conservadora. Não era sem razão que o americano Irving Kristol, outro teórico do neoconservadorismo, defendia que o problema da economia capitalista não era uma questão económica mas cultural e que o combate era ainda um combate no campo ideológico. Por isso (ou para isso) também, modestamente, cá estamos.



[1] Entre nós foi publicado pela Gradiva, em outubro de 2017, Um Racismo Imaginário Islamofobia e Culpabilidade, tradução do original que apareceu em França no início de 2017. Retoma aqui algumas das suas ideias fundamentais contra o multiculturalismo e o racismo dos anti-racistas. Sobre esta última tese, ver aqui.

[2] Pascal Bruckner, O Remorso do Homem Branco, Lisboa, Publicações Dom Quixote, 1990, 265 pp.
[3] Cf. Pascal Bruckner, op. cit., p. 31.
[4] Op. cit., p. 32.
[5] Op. cit., p. 37.

terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

Sítios de pesquisa para a elaboração de trabalhos escolares e académicos

Para pesquisar e encontrar muito do material que é preciso para os trabalhos escolares, esqueçam o Google e procurem nestes sites. 
A lista dos melhores sítios de pesquisa académico aparecem aqui listados.



domingo, 25 de fevereiro de 2018

Um lavagante esfomeado mas politizado

Um senhor lavagante
muito elegante
passeava com a sua amante
de exaltante aroma
em plena avenida de Roma.

Sentindo alguma fomeca
entrou num restauranteperguntando
Então, não há nada que se coma?
Respondeu-lhe o empregado
um tal de tal João Alberto
Ora, caro senhor lavagante
apareceu no sítio certo!
Pois é aqui que se manja
E a vontade fica satisfeita
Pode começar por uma canja
Com muita carniça desfeita.
Para si e p'rá sua amiga
que parece desfalecer
se qualquer coisa p'rá barriga
não lhe arranjarmos p'ra comer!
Só que o nosso lavagante
Não era bem o prato do dia
A coisa que ele mais queria
mas antes algo de mais extravagante
Para rimar com lavagante.
E pondo-se com modos de artista
Pede então a lista
E ao empregado Alberto
Que não tinha cara de esperto
Mas antes a raiar para o assim-assim
Disse-lhe, todo importante
«Olhe, escolha por mim…»
Respondeu-lhe o tal Alberto
cheio de boas maneiras
isto é, come il faut,
seguindo a etiqueta:
Temos aqui um pitéu, une chose fine
um extraordinário petisco
uma receita da mais que nouvelle cuisine!
Só que inclui… marisco!
Foi então que o lavagante,
olhando para a sua companheira
virou-se
irado
para o empregado,
«Oh, meu desgraçado
saia já da minha beira!
Então oferece-nos marisco
à conta de grande petisco
a nós que viemos do mar?
Não vê que isso é suicídio
Mais talvez mais parecídio
com premeditado
homicídio?...»
E os outros clientes
despertando dum sono dogmático
deram em concordar com o lavagante
e passaram a comer vegetais
dali em diante!

sábado, 24 de fevereiro de 2018

Direitos dos animais (1)



As ideias do eminente filósofo Peter Singer sobre a perspetiva da ética sobre direitos dos animais pode (e deve) ser vista aqui.


segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

Tony Wagner: reinventar a educação para enfrentar o futuro


Que aprender? Que alunos queremos formar? Que professores e que escola temos que desenvolver, quando o conhecimento está acessível a todos?
Tony Wagner, diretor do Laboratório de Inovação da Universidade de Harvard apresenta-nos ideias para um novo modelo. E, o que é mais interessante, é que a Filosofia tem aí um papel essencial. Ou pode ter.




terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

Racismos e intoleráveis posições

O livro Racismos - das Cruzadas ao Século XX de Francisco Bethencourt[1] é espantoso a vários níveis: pela erudição e profundidade do autor, pelo rigor e abrangência das referências e temas que mobiliza para um debate que só pode ser mais bem fundado a partir daqui. Mas é também um livro essencial pela qualidade dessa informação que traz para uma temática que, infelizmente, regressa sob novas roupagens para a atualidade política. Aí percebemos que mitos e preconceitos, intolerância tóxica e memórias mal trabalhadas, continuam a alimentar posições que se vão manifestando no espaço público. É, por isso, um livro essencial.
Se é verdade que o nosso passado deve ser melhor estudado e pensado, já agora, doa a quem doer, na escala das atrocidades intelectuais talvez o nosso eterno atraso científico nos tenha evitado contribuir para essa mistificação pseudo-científica em torno das raças, onde pulularam ingleses e norte-americanos, mostrando como o debate científico serviu e serve as intenções e projetos políticos mais inconfessados.
Entre o abundante material referido e tratado neste livro, chamou-me a atenção as quatro páginas dedicadas a Louis Agassiz (1807-1873). Este suiço de nascimento foi um eminente zoólogo, geólogo e historiador natural que estudou em Zurique, Heidelberga e Munique, trabalhou na Universidade de Neuchâtel e, em 1846, mudou-se para os Estados Unidos onde se tornou professor de zoologia e geologia em Harvard[2].
Ora, entre abril de 1865 e agosto de 1866, Agassiz participou numa expedição ao Brasil e que contou com jovens estudiosos como, por exemplo, William James, o futuro psicólogo e filósofo e cuja obra ficará internacionalmente conhecida.
Francisco Bethencourt
Durante a expedição, Agassiz foi registando várias observações. Algumas não deixarão de, eventualmente, melindrar o nosso sentimento mais nacionalista. Assim, Francisco Bethencourt dá-nos conta de que Agassiz defendia que «em inteligência, os negros livres estão à altura dos brasileiros e dos portugueses», que transmitiam «o espectáculo único de uma raça superior a ser influenciada por outra mais baixa, de uma classe educada a adotar os hábitos e a descer ao nível dos selvagens»[3]. Isso mesmo, os portugueses teriam descido na escala das raças (no pressuposto meramente ideológico de que existe essa escala) e, vítimas da mestiçagem, fomentado esse contacto reprovável entre raças, teriam contribuído para o desaparecimento duma pureza que se dissolveria com as boas qualidades físicas e morais que a acompanhavam. Para Agassiz, citado por Bethencourt, os mestiços eram tão repugnantes como cães rafeiros!
Porém, o que pretendia Agassiz?
Nada mais que avisar que «o Brasil era um bom exemplo do tipo de sociedade de raça mista que os Estados Unidos deveriam evitar»[4]. Por outro lado, o autor enquadra a posição de Agassiz no contexto político dos Estados Unidos da altura: a derrota da Confederação e a vitória do abolicionismo[5]. Mas nem tudo estava perdido para os defensores do esclavagismo e da supremacia dos brancos: até à década de 1960 manter-se-ia "um desenvolvimento ativamente político da teoria das raças a favor das políticas sulistas de exclusão, segregação e discriminação [...] sob o olhar impávido dos pragmáticos brancos nortistas que partilhavam os mesmos preconceitos raciais básicos"[6]. É que o problema não tinha apenas a ver com uma discutível teoria das raças, mas com o modo de produção capitalista. E este estava (e está) para durar.

Francisco Bethencourt, Racismos - das Cruzadas ao Século XX, Lisboa, Temas e Debates - Círculo de Leitores, 2015, 582 pp.



[1] Francisco Bethencourt, Racismos - das Cruzadas ao Século XX, Lisboa, Temas e Debates - Círculo de Leitores, 2015, 582 pp.
[2] Sobre a obra de Agassiz, cf. http://www.cienciahoje.org.br/noticia/v/ler/id/2703/n/o_racismo_de_louis_agassiz.
[3] Op. cit. p. 387.
[4] Ibid.
[5] Op. cit., p. 388.
[6] Ibid.