sábado, 8 de fevereiro de 2020

A vocação imperial da Alemanha segundo Guilherme II

Aos fins-de-semana volto aos livros quase esquecidos durante a semana. Retomei, assim, a leitura da fantástica obra de Christopher Clark, professor de História Contemporânea da Universidade de Cambridge, Os Sonâmbulos - como a Europa entrou em Guerra em 1914 e que Niall Ferguson classifica como a melhor narrativa "sobre o que terá sido o maior erro coletivo na história das relações internacionais"[1] . Ora, lá para o meio, deparo com a personalidade desbocada do imperador alemão Guilherme II.
Ora, normalmente, associamos as pretensões expansionistas da Alemanha a Hitler e ao regime nazi. ´Porém, parece que o projeto, mesmo formulado episodicamente e em termos delirantes e jocosos, já começara com Guilherme II. Com efeito, o Kaiser, nos finais da década de 1890, considerou entusiasticamente um projeto de criação de uma "Nova Alemanha" (Neudeutschland) no Brasil. Em 1899, informou Cecil Rhodes da sua intenção de transformar a "Mesopotâmia" numa colónia alemã. No ano seguinte, durante a Guerra dos Boxers, defende o envio dum corpo do exército para a China, na perspetiva duma repartição posterior do país. Em 1903 declarava novamente que a América Latina era o seu alvo! E insistia com os responsáveis do almirantado na preparação de planos para uma invasão de Cuba, Porto Rico e Nova Iorque!
Ao que parece, atribuía-se a Guilherme II uma "imprudente falta de tento na língua" (p. 209), algumas das suas intervenções eram de mau gosto e deslocadas. A história, de facto, repete-se. Repetiu-se. Agora, estamos na fase da tragédia.


[1] Christopher Clark, Os Sonâmbulos - como a Europa entrou em Guerra em 1914, Lisboa, Relógio D'Água, 2014, 682 pp.

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